terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Um adeus qualquer

No quarto fechado e abafado ela arrumava as suas coisas pra partir. Esperava que o telefone tocasse com alguma notícia que mudasse seu destino. Como ela poderia viver ou tentar ser feliz diante de tamanha tragédia? Não teve coragem de desfazer o laço que o pai amarrou no ultimo passeio juntos. Seus avós maternos, por algum motivo que ela ainda não entendia, tiravam-na de seu lar, da tão heróica companhia de seu pai para levá-la a estudos fora do país. Entendia que os avós culpassem o homem pela morte da filha deles, embora soubesse que seu pai nada tinha a ver com tudo aquilo, e desde que sua mãe descansou nos braços da morte, este nunca mais sorriu. O que não entendia e talvez nunca fosse capaz era que descontassem toda dor pessoal nela por ser apenas uma adolescente e que, nas suposições deles, era a que menos sofria diante de tudo. Enquanto enrolava o cigarro em uma toalha pra esconder de quem pudesse mexer em sua mala, uma lágrima solitária corria de seu rosto ainda infantil. Naquele momento não importava quem fosse, sentia um aperto no peito que consumia suas certezas. Ao passar pela porta, avistou seu pai esperando para dizer adeus. Seus olhos mareados, os soluços e toda tristeza escancarada em sua insatisfação em sequer dar passos rumo ao futuro; sua resignação quanto a decisão dos seus denunciavam o quanto estava infeliz. O homem que perdia seu único amor, entristecido, perguntou-a: "o que eu poderia fazer?". A resposta foi duramente suportada: 

- "eu queria que você lutasse por mim!"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O quarto círculo...


Da rotina herdei cascas impermeáveis às emoções. Solidarizar, para mim, não passa de um performativo, de um atuar, um quase-fingir (sim, porque atuar é diferente de fingir). Essa coisa maquinal, incrivelmente leve e destrutiva da repetição, da falta de sentido, tatuou em mim a mais perfeita das indiferenças. Seja escuro ou solar, dor ou conforto, a mim é insípido como promessas de santos, artigos científicos ou a "verdade" sempre imunda dos juristas. Entre juristas e santos o mundo foi reduzido a um marasmo asilar, com o cheiro já familiar dos banheiros de rodoviária. E aqui estou, pingando câncer e alma enquanto tropeço por essas descontruções ruidosas que insistimos em chamar de dias. Se não tivesse herdado da rotina essa minha indiferença, talvez me importasse com isso.


...preciso ir...hora de trabalhar...

Sobre entrelinhas, reticências e outros quetais

E se o melhor que eu puder dizer pra você seja possível apenas por meio de comunicação não-verbal? E se eu não tiver um lápis, caneta ou laptop? E se você não entender minha língua, minhas gírias, minha gagueira ou meus cacoetes? E se nada que eu disser resolver teus problemas? E se eu falar o que você não quer ouvir? E se eu me negar a falar? E se as reticências forem mais relevantes do que as palavras? E se as coisas relevantes estiverem nas entrelinhas? E se o barulho lá fora for ensurdecedor? E se o silêncio aqui dentro for amedrontador? E se nada fizer sentido? E se fizer todo sentido? E se tua educação formal não te ensinou como ser humano? E se tua humanidade não te garantiu o profissionalismo? E se eu parar de te questionar? Sua inquietação terminará? Ou sentirá falta de uma nota dissonante?


Sendo assim, me despeço. Deixo como herança algumas entrelinhas e reticências. Faça bom proveito!

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*Este texto nasceu inspirado em um outro, chamado "reticências", escrito pela Maísa há um tempo atrás. Leiam aqui.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

a conclusão é sua

De quem é esta voz que todo mundo ouve, mas ninguém percebe? É um sussurro, mas parece um mantra. Todos aprendem, todos aceitam; mas não há uma inteligência real de impedi-la porque é como se ela não existisse. Simples assim. Entram em nossas vidas, ditam valores, comportamentos, dizem-nos o que fazer; mas sua covardia nos confunde com qual parte do que acreditamos é nosso e qual parte do que acreditamos é imposto. Nos confundimos neste termo, exatamente naquele pontinho pequeno que divide dois abismos completamente diferentes. Não sabemos onde começamos, nem onde terminamos. Voz tão cruel que nos ensina a ser o que não somos e renunciar a nós mesmos. É criminoso roubar de alguém o direito de viver e existir, e vice-versa.
Incoerente que qualquer pessoa diz em algum momento da vida odiar falsidade, mas que o mundo ainda seja tão consumido por ela. Incoerente que os mesmos que compram os livros de auto-ajuda em busca do alcance de uma felicidade enlatada também comprem as revistas de beleza e comportamento. Me convence pela distorção de valores tão comum no ser humano atual e sua insatisfação pessoal que tende a cada vez mais piorar, mas ainda assim acho importante questionar.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Iconoclasta

Dedicado a você, que não nos esquece.

É bom estar aqui no Céu. A vida é tranquila. Não sei, mas acho que você demora a chegar aqui. Se chegar. Todo final de ano, você se rebela. Acho que é sinal de que ainda não está maduro para nos alcançar. Ah, respeito tua reza, mas estes santos estão de férias. Quer recomeçar?

- "Saque indisponível. Dirija-se ao caixa eletrônico ao lado".

- "Senhor, infelizmente este item está fora de catálogo. Poderia refazer seu pedido?"

Não aprecio batalha naval. Prefiro lutar em terra firme. Aqui na ilha temos todo tipo de fruta tropical. "Yes, nós temos bananas!".

"Se eles rezam muito, eu já estou no Céu!".

Engraçado. Quem não chegou aqui ainda, fica o tempo todo a deduzir como seria nosso ambiente... ao mesmo tempo, desdenha. E, óbvio, não nos esquece. Mas que coisa, o segredo está em todo lugar. Está na Bíblia, está nas canções, está até mesmo nos códigos jurídicos.

"Esqueça os mortos, eles não levantam mais!"

Engraçado mesmo é ver como você acha que tem opiniões relevantes a respeito da carreira de alguém. Como se importasse para este alguém ou para quem o aprecia, saber como você acha que deve ser direcionada tal carreira.

"Please don´t put your life in the hands of a rock n´ roll band..."

Bom, é hora de ir. O pessoal está nos chamando pra jogar um futebol aqui. Aliás, nosso time está incompleto. Conhece um bom lateral-esquerdo? O quê? Você? Não. Precisa treinar mais um pouco. Tente ano que vem...

Ah, em caso de dúvida sobre como se comportar, leia: http://marmitafilosofica.blogspot.com/2009/03/arte-da-irrelevancia.html

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A química nossa de cada dia

A história contada não é nada mais que uma viagem completamente inverossímil. Mas é um bom pretexto para apresentar "Everyday Chemistry", coleção de mashups de canções das carreiras-solo de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, compiladas como se fossem gravações inéditas dos Beatles. Segundo nos conta o sujeito que adota o nome fictício de James Richards, ele passeava de carro pelo deserto com seu cão. Ao fazer uma parada no acostamento, acaba sofrendo um acidente, pisando em falso no que parecia ser uma toca de coelho e batendo a cabeça. Segundo ele, acorda em uma casa, para onde foi levado por um homem que diz se chamar Jonas, e que diz viver em um mundo paralelo. Pra encurtar esta história, neste mundo paralelo, os Beatles ainda tocam juntos. Inclusive George e John estão vivos. Jonas mostra a ele gravações "inéditas" do quarteto. Impedido pelo tal sujeito de outra dimensão a levar a fita, Richards acaba surrupiando uma delas. De volta ao mundo real, apresenta então esta gravação através do site "The Beatles Never Broke Up", além de contar a absurda história. Enfim...
Trazendo a história para o mundo real (de verdade), o tal "Everyday Chemistry" não parece eficaz em mostrar uma hipótese do que poderia vir a ser um disco dos Beatles se eles continuassem juntos. Principalmente pela bateria eletrônica que permeia as gravações, o que talvez fosse necessário para fazer com que as colagens ficassem coesas. Como curiosidade, é extremamente interessante. Mas é só. Pra quem deseja conhecer, basta baixar o álbum completo aqui. De cara, logo na primeira canção, "Four Guys", dá pra sacar as misturas de canções da carreira-solo de Paul McCartney (maioria no disco), principalmente "Band on the run".


Seja como for, vale conhecer.

sábado, 19 de dezembro de 2009

A trilha sonora de um mundo que não existe mais...


Humberto Gessinger é um cara que ainda escreve canções. Ele é o sobrevivente de uma época estranha, em que as pessoas esperavam que os artistas dissessem algo através de sua arte e muitas vezes esses artistas acreditavam que isso era possível. Se a obra dos Engenheiros tivesse aparecido na década de 60 em um país menos tropical talvez não tivesse passado por toda sorte de vilipêndios que enfrentou. Na melhor das hipóteses Gessinger pode ser classificado como um atavismo que superou as tentações fulgurantes das mudanças e adaptações à moda justamente por se dedicar a algo incrivelmente anacrônico: escrever canções. Muitos já estão pensando nesse momento: "mas, um monte de gente ainda escreve canções!" Será mesmo?

A canção popular é um fenômeno cultural da modernidade. Não é de se assustar que o fim da era moderna, o qual atravessamos desde o final os 60's, ameace de extinção a canção. O paradigma em que ela nasceu e surfou quase soberana por tanto tempo não mais existe. A produção enlouquecida de música eletrônica (que não segue o padrão de uma canção) é prova disso. A canção se torna a exceção dentro de uma regra que prega a repetição, o barulho, o caótico. Muitos "artistas" que pretendem trabalhar canções vendem uma outra coisa, um estilo, uma festinha, um rostinho bonito, e a canção é só um brinde. Para um público que não sabe ouvir, "artistas" que não sabem compor ou tocar. O melhor e mais mastigado exemplo são as bandas emo, mas podemos colocar no mesmo balaio o Capital Inicial, os Titãs, as bandas de festa 'ploc', e toda essa farra do boi em que se transformou a música brasileira.

Essa realidade só torna o trabalho do cancioneiro uma anacronia ainda maior. Talvez seja a primeira sensação que nos acomete quando ouvimos o trabalho de Gessinger e seu parceiro, Duca Leindecker, no projeto chamado Pouca Vogal. Quando o duo liberou suas oito canções inéditas e semi-acústicas no seu site havia algo ali que chocava. O que chocava era a distância monumental do barulho, da bagunça, da gritaria e do baticundum fake que permeia 99 em cada 100 trabalhos musicais lançados hoje. Mas somente assistindo ao DVD que essa impressão se decantou e confirmou. Tudo é sofisticadamente simples, menor, singelo. Apesar de se multiplicarem sobre múltiplos instrumentos e bugingangas, nada é exagerado, nada é além da medida, nada é falsificado. Mas o que impressiona mesmo é o fato das canções funcionarem num mundo em que ninguém mais liga pra canções. Podemos ignorar isso, mas é assustadoramente sintomático que os Beatles continuem na mídia mas que pouco se fale sobre as canções que fizeram juntos. Isso explica também o fato de que Lennon, obviamente o beatle com a vida mais impressionante, tenha uma presença midiática mais forte que os demais membros da banda.

Outro fato sintomático é a incapacidade latente dos "músicos" populares de hoje de falarem sobre música. Tudo é falado, narrado, investigado, da cor do esmalte à quantidade de obturações dentais do dito cujo, mas todos são incapazes de falar sobre música, sobre o que é legal ou não, sobre quais as pretensões artísticas, timbres, letras, etc. O melhor exemplo de diletância vazia são as entrevistas do Marcelo Camelo. Poucas pessoas tem aquele talento para falar, falar, falar e nada dizer. Até o "hã?" de sua namorada adolescente, Mallu Magalhães, é mais profundo que tudo o que o Camelo acha que diz.

Mas estávamos falando de músicos sérios. Quem estiver procurando um disco de rock nos moldes tradicionais deve passar longe do Pouca Vogal. Quem quiser algo revolucionário e avant garde, também. Não temos excessos e firulas, nem ôêôs com a platéia. Não temos guitarras quebradas no palco, nem carinhas de tesão fake pra impressionar as menininhas. Ao invés disso Gessinger & Leindecker nos dão canções, boas canções. Em tempos de arte vazia e megalomaníaca, em que tudo é purpurina e falação, isso é uma grande coisa.