sexta-feira, 1 de junho de 2012
Tirando os heróis do armário
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
"No todo torpor, no todo ardor..."
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
"...rebuliço no cortiço..."
A porta estava aberta. Assustou-se
Entrou em casa e encontrou tudo revirado. “É ele. Só pode ser ele.”
Seu filme favorito estava jogado no chão, quebrado. Era pessoal. Era um recado.
Não ignorou o silêncio. Procurou por seu cachorro. Chamou. Não houve resposta. Vasculhou os cômodos, mas não o encontrou.
Sentiu uma súbita vontade de mijar, foi ao banheiro.
O banheiro era branco com detalhes em metal. Havia uma pia, vaso, cortina, escova de dentes, touca, uma vodka, toalhas, meias, calcinhas, camisa de futebol, um livro, palavra cruzadas – ouvi dizer que seu intestino era preguiçoso -, chuveiro, secador de cabelos, tesoura, shampoo, sabonete, bucha, creme, copo, rádio, cigarros, fósforo, caneta, tapete, pinça, absorvente, e o que ela mais gostava no banheiro, a banheira: grande, com hidromassagem.
Me disseram que ela chegava em casa, brincava com o cachorro, subia ao banheiro, enchia a banheira, abria a vodka, entrava na água, afundava a cabeça, prendia a respiração, abria os olhos, soltava o ar devagarinho e levantava. Bebia da vodka, da garrafa... e fazia tudo outra vez. Saia. Sacudia o corpo. Se secava. Botava roupa seca, e ia pôr comida pro cachorro.
Na cozinha, abria uma cerveja, dava um pouco pro bicho. Comia salada. Não gostava de carne. Ligava o som, dançava... e o cachorro corria atrás dela, e mordia seus tornozelos... queria brincar, só fazia isso.
Quando entrou no banheiro, viu o cachorro... e o sangue: estava morto. Um cheiro de vodka, sangue, cerveja e cigarros impregnado no ambiente.
O cão estava morto, dentro da banheira. Seu sangue misturado com a água, a vodka, a cerveja, e o cigarro. Na banheira havia tudo o que ela mais amava.
Final 1
Ficou em pé, diante da banheira, olhando o quadro: “Lynch, seu bastardo.”
Riu.
Saiu.
Desceu à cozinha e abriu a geladeira; encontrou uma faca suja de sangue.
Havia ainda uma cerveja.
Bebeu.
Final 2
Olhou a cena, o sangue: Lynch, seu bastardo...
Olhou o banheiro... gravou a cena na memória... sentiu uma leve tonteira... desmaiou...
Acordou, tempos depois.
Se levantou, tirou a roupa. Cortou a mão, deixou que seu sangue escorresse pelo braço e caísse na banheira.
Entrou , e fez parte daquela imensidão morta, de amores: a moça, o cachorro, a banheira, o sangue, a vodka, a cerveja e o cigarro.
Restava ainda um pouco de vodka na garrafa. Bebeu. “Aquele patife miserável...”
Saiu da banheira, se lavou na ducha extra. Vestiu-se.
Telefonou.
- Eu vi o que você fez. Não estou me sentindo bem. Venha aqui?!
Ele foi. Ela o beijou a face. Ele tirou a roupa e a abraçou. Ela Enfiou uma faca em suas costas... Seus olhos ainda a olhavam... Ele sorria.
A moça postou o corpo do assassino de cervejas dentro da banheira, da grande banheira que comprara... Esperou.
O olhar do rapaz se tornou aflito... ela tapou sua boca, com uma camisa... Ele morreu.
Ela, outra vez, entrou na banheira. Adormeceu.
Acordou espantada. Gritou. Desmaiou.
Acordou. Sorria.
Se lavou e se trocou.
Pegou uma carta, leu, queimou e riu.
Ouvi dizer que eles combinaram. Eram fanáticos em Lynch e Jodorowsky. Ele fez sua parte, ela não. Ele se matou. Ela o traiu, deveria estar morta.
Ela deixou o pó da carta sobre o chão. Desceu. Abriu a geladeira.
Bebeu uma cerveja...
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Ela flutua
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Five years, novo Mojo Single.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Fundamentalismos
Em verdade, somente nessa dimensão podemos enxergar uma secularização real dos Estados.Herdeiros da racionalidade jurídica católica, todos seus ritos e procedimentos estão imersos na necessidade de reafirmação (re-ligare) própria das religiões. E é isso que atraiu as massas nos Estados. Baudrillard já dizia que nunca as massas foram realmente religiosas, elas gostam mesmo é do espetáculo religioso, do ritual, maravilhoso e incompreensível que se desfralda em sua frente. De certa forma, permaneceram pagãs, substituindo sua miríade de deuses e deusas por santos, heróis da fé, penitentes. A religião? Essa continuou sendo uma dimensão teórica, distante, abstrata.
O crescimento desvairado do número de igrejas evangélicas no Brasil nada mais é que fruto dessa realidade mais antiga. A apropriação por seus membros de boa parte do nosso legislativo é consequência dos próprios mecanismos "democráticos" que privilegiam a soma de vontades privadas em detrimento da construção de uma vontade pública, e da incapacidade do Estado laico em responder aos anseios de boa parcela do população, que busca essas respostas nas palavras do pastor. A igreja diz que vou ficar rico, o Estado me oferece salário mínimo, pense bem...
A questão é: estabelecer a religião como inimiga do Estado de Direito é um tremendo equívoco. Defender a laicidade com o mesmo empenho que os religiosos defendem sua fé, também. Há sempre uma parcela indelével de insanidade que nos marca quando apontamos a irracionalidade de alguém. Escrevo essa linhas apressadas após ler esse texto que praticamente sugere uma Jihad pelo Estado laico, com a oposição de uma bancada secular à bancada teocrática (péssimo uso do termo teocrático) e cria uma impossibilidade entre monoteísmo e democracia (???). Seguindo esse último raciocínio democrática era a Índia dos milhões de deuses e das mil castas.
Eu entendo a posição do autor. Acho ofensivo ver crucifixos em repartições públicas, sentenças baseadas em cartas psicografadas, dinheiro público custeando todo tipo de obra e propaganda religiosa. Mas, aonde fica minha laicidade, se eu a transformo em minha religião, querendo imputá-la como credo, baseado no "sagrado" texto constitucional como se fosse tirada da Bíblia. Meu arrepio diante do que me ofende, me autoriza a agir como quem me ofende? Seria isso cristão? Budista? Islâmico? Seria isso, em última instância, constitucional?
Não deveríamos pensar em fortalecer os mecanismos e formas obsoletas do Estado Nacional, mas superá-los, transcendê-los. Mais do que uma bancada teocrática, o que impede a realização do Estado Democrático de Direito é sua conversão em um dogma vazio, formal, natimorto, eivado pela obsolescência da própria forma democrática dentro de um sistema econômico e social excludente, que só autoriza a democracia formal. E então chegamos à essa condição, em que o Estado laico é defendido através das estratégias de seu "inimigo", lançando mão de suas formas autoritárias e dogmáticas. Fundamentalismo trasvestido de democracia. Palavra da salvação (Constituição da República Federativa do Brasil, atigo 5, VIII), nós, representantes do povo brasileiro...sob a proteção de Deus...
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Rádio Bogotá
E essa regra não se aplica somente à músicas estrangeiras, que geralmente são de países latinos, não ouvi nada em inglês desde que cheguei. Todas as músicas recebem o mesmo tratamento, até mesmo a quase onipresente salsa, que toca o dia inteiro nos ônibus, elevadores, lojas, táxis, tem suas canções, que já são de uma familiaridade muito grande de todo o povo, apresentadas com grande entusiasmo.
As rádios brasileiras desaprenderam a fazer isso há muito tempo, assim como desaprenderam a tocar música brasileira que não seja da pior qualidade, como mostra o monopólio irritante do sertanejo universitário nas rádios. Quando não estão tocando essa b*st* estão tocando porcarias estrangeiras, como Justin Bieber. Os compositores não existem para as rádios, músicas que não sejam comerciais o suficiente também não, e esse é um conceito muito restrito. E isso, mesmo que hoje as rádios não tenham a penetração de outrora, é muito grave. Estamos nos acostumando a esse tratamento pobre em relação à música, e as rádios brasileiras contribuem muito pra isso.

