segunda-feira, 26 de julho de 2010

"Eu ainda ando pelas mesmas ruas"

“Prezado Felício:

Como estão as coisas por aí? Espero e acredito que estejam bem, visto que tivemos uma boa conversa há pouco tempo. Escrevo-te esta carta para dizer que visitei Sades recentemente. Sei que já não pisas lá, e não repudio tal atitude, já que não tens motivo para tal. Sades anda cada vez mais suja. Há gente gritando pelas ruas, a maioria dizendo frases sem sentido. A maioria espera um santo que nunca vem. Talvez porque não seja santo. Talvez porque tenha perdido os poderes. Fato é que passei pelo Arquivo Central, e pesquisei na letra F, pra encontrar alguns registros dos meus discursos, no tempo em que fiz parte daquele plenário. Sabes de uma coisa, caro Felício? Senti orgulho de mim mesmo, não me furto a dizer. Não retiraria uma vírgula de tudo o que disse naquele auditório, e fico feliz por saber que tudo está registrado. Acho que já havia dito isso em uma outra conversa que tivemos, não? Pois é. Mas hoje, volto a te falar sobre isso pelo fato de termos a mesma inicial, o que fez com que eu encontrasse no mesmo arquivo vários discursos teus, além de atos teus enquanto eras membro do Conselho Regulamentador. E como eras justo, caro Felício! As opiniões eram expressas livremente, mesmo quando eram, de certa forma, desconexas. Só havia punição quando alguém cometia alguma insanidade. Rufus, o ingênuo, sempre era punido, por vezes expulso do plenário, mas nunca foi tratado com truculência.
Andei dando uma olhada pelos arquivos de discursos recentes também. Depois de nossa saída; a tua por não tolerar mais a injustiça; a minha um pouco por tédio, um pouco por nojo daquele lugar, percebo que Egydio, o jovem, e Lisandra, a bela, retornaram ao plenário. Acho que Egydio tem futuro, embora eu acredite que lhe falta foco. Já Lisandra tende a não ser levada a sério, talvez pelo brilho dos olhos, ou pelo belo sorriso que ostenta enquanto fala.
Simão, o cidadão de bem, continua por lá, cuspindo bobagens, mas não tem muita gente para apoiá-lo. Costuma brigar com as paredes. No último discurso que li, ele se lamentava de minha ausência. Não pude deixar de sorrir. Dario, o tolo, está pronunciando um pouco melhor as palavras, mas continua o mesmo. Dia desses, confessou que pulou de um precipício porque todos os seus amigos pularam, e mesmo tendo se machucado muito, o faria de novo para prestigiar os amigos. O que ele não sabia é que todos os “amigos” tinham equipamentos de salto, menos ele. E não sabia que todos estes “amigos” comentavam sobre a tolice dele nas rodas de conversa. É um tolo, sem dúvida.
A esta altura você deve estar perguntando como anda Principês. Pois bem: como sabes bem, nosso amigo conseguiu o que queria, voltou a ter um cargo alto no Conselho Regulamentador. Mas pouco aparece por lá. Na verdade, não há o que fazer por lá. Só há uma meia dúzia de loucos que realmente freqüenta o plenário, e estes não oferecem o menor perigo. Eu me pergunto: do que vale todo esse poder? De que vale poder gritar mais alto, se a única resposta será o eco?
Fico por aqui. Se tiver mais notícias de Sades, lhe reporto. Abraços fraternos”.

Fidelis Idea


*Este texto faz referência a um outro, "Let down...", escrito pela Maísa. Leia aqui.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A segunda divisão

1
Era um jogo decisivo. Apenas quatro times subiriam para a primeira divisão. O time estava em quinto lugar. Precisava de apenas um ponto para se classificar e desbancar o rival que estava na quarta posição. Naquele momento, perdia por um a zero. Um pênalti. No final do jogo. A redenção poderia vir naquele momento. O atacante pegou a bola, chamando para si a responsabilidade. Veterano, já beirava os trinta e três anos. Ainda não pensava em se aposentar. Com razoável sucesso em times grandes do Brasil e da Europa, chegou um momento em que não havia mais propostas de clubes de expressão, e ele acabou aceitando jogar naquele clube médio. Colocou a bola no chão, olhou para o goleiro. Pensou no seu salário. Era razoável. Mas estava atrasado havia três semanas. Pensou sobre a importância daquele pênalti. Pensou no ano seguinte. Seria ele o titular do time na primeira divisão? Provavelmente não. Com mais dinheiro, o clube contrataria um jogador mais jovem, revelação de algum outro time. O que seria destinado a ele? Um prêmio pela artilharia do campeonato da segunda divisão, uma renovação de contrato por mais um período curto, um jogo de despedida? Ou a rescisão contratual, relegando-o a algum outro clube de menor expressão? E se mais nenhum clube se interessasse? Pensou nos outros jogadores. Alguns jovens, início de carreira. Teriam chance no time principal no próximo ano? Ou também seriam como ele, tendo que escolher entre serem emprestados a times de menor expressão ou correrem o risco de nem serem relacionados para as partidas, se restringindo a treinos no time reserva? E nem os salários estavam sendo pagos em dia...

Ele olhou novamente em direção ao gol. O goleiro se preparava. O time adversário nem tinha mais chance no campeonato. Não havia, portanto, pressão alguma sobre o guarda-redes. Tudo que ele tinha que fazer era chutar para o gol. Seria fácil.
O juiz apitou, autorizando a cobrança. Ele tomou distância. Neste momento, pensou em Roberto Baggio na Copa de 94. Chutou com força, para o alto. Baixou a cabeça e saiu, sem olhar para os lados.

2

Ele sabia da presença de olheiros de dois times grandes no estádio, um do sul e um da capital. Teria que fazer uma partida excelente. E vinha fazendo. O time adversário brigava por uma vaga entre os quatro primeiros, o que garantiria o acesso à primeira divisão. O time dele não brigava por nada. Mas era a chance dele de ser visto e de conseguir um contrato em um time grande. Pensou na ascensão que teria sua carreira. Era um goleiro jovem ainda, vinte e três anos. Dez a menos que o artilheiro do campeonato, o centroavante do time adversário, que não acertara um chute desde o início da partida. Todos os chutes foram defendidos com primor. E o time ganhava por um a zero. Eis que, quase no final da partida, o zagueiro à sua frente derruba o meio-campista adversário. O goleiro sabia que, se defendesse aquele pênalti, suas chances de uma grande transferência aumentariam, e muito. Aquele era o seu momento. Apertou a mão do adversário, fez uma provocação e tomou seu lugar. Ficou se movimentando até que fosse dada autorização para a cobrança. Enquanto isso ia pensando sobre a possibilidade de nova vida que se apresentava. Finalmente poderia ter dinheiro pra comprar um apartamento. Talvez um carro importado. Balada? Não, precisava tomar juízo. Havia se casado recentemente, precisava respeitar a mulher de sua vida. Ela iria amar a vida na capital, pensou. E caberia a ele decidir para qual clube iria. O empresário já o havia colocado a par das sondagens. Aquela partida seria fundamental para as propostas se consolidarem. Defender um pênalti, então, meu Deus, seria a glória! E ele estava otimista. Era chegado o momento. Ele esperaria o centroavante chutar e pularia para agarrar a bola, para o lado que ela fosse. Estava preparado. Tudo certo! O juiz apitou, autorizando. O jogador tomou distância e chutou. Para o alto! Todos os jogadores correram, enquanto o cobrador do pênalti se afastava, cabeça baixa. Foi bom para o time, que garantiu a vitória. Mas o goleiro não se conformava, xingava o adversário. Faltavam dois minutos para o final da partida. Botou a mão na coxa, caiu, simulando uma contusão. Não queria mais estar ali. Para ele, o jogo havia acabado.