quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

.enquanto estás fora de mim...

MALDIÇÃO. Eu comecei a te ler, as lágrimas me vieram como impiedosas crianças, calmas e sinceras. Não resisti. Tirei o óculos. Meus dedos, minhas mãos foram de encontro aos meus olhos. Pensei. "Você! Você me faz isso. Me lembro de sentimentos que sinto, sem a perseguição doentia do meu orgulho.". Queria escrever. Transcrever. O Telefone tocou. A voz. Que voz. Maldito. Me tirou de você. Entrei, absorvi o mundo. Maldito mundo. Parada. De novo. Que existência. Era você. Você. Quantas de você preciso em mim. Quantas de mim, penso, tem em ti?! Mas a ligação. Que voz. Maldita voz. Não te encontro mais. Te busco. Meu estômago revira, e dentro de mim, estou em ordem. Que caos. Onde estás? Estás aqui. Creio. Preciso. Te rezo. Clamo. Minha blasfêmia. Meu amor.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

As crônicas de ninguém, volume 4

Nosso ciclo se completa com o texto da .má oliveira. Foi uma experiência prazerosa. Semana que vem, faço um balanço de tudo, e provavelmente minha versão da história. Vamos ao volume 4:
Menos um tijolo na parede

por .má oliveira

- comece de novo.

- mas por quê? pra mim estava tudo certo!

- não, é melhor recomeçar, você deu uma vacilada logo no início.

- certo, tudo bem, você é quem manda. mas eu não percebi nenhuma vacilada.

- olhe para o centro. você não começou pelo centro.

- mas por que o centro? por que as pessoas perseguem tanto o centro?

- porque é lá que você vê o todo.

- e se lá não for onde eu quero estar? e se eu me sentir melhor à esquerda?

- ora, se você está aqui, é porque quer o centro.

- tudo bem, professor. você tem uma gravata bonita, sua caneta brilha ao longe. tem cara de quem come panquecas no café da manhã. o senhor parece realmente ser um cara legal. nunca repete o sapato e seu humor é quase mecânico. mas aí o senhor senta aí nessa cadeira e vomita suas verdades. e elas são incontestáveis, professor, sabe por quê? porque o senhor está atrás desta mesa com esta gravata cinza apontando o brilho da sua caneta pra mim. o senhor exibe seus novos sapatos diários e tem cara de quem sorri feliz porque comeu panquecas de manhã. o senhor é bem-sucedido, o que supõe que eu tenha que ouvir todas as suas merdas e acreditar. por que, professor?! eu lhe digo o porquê! porque eu sou só um filho da puta, professor. um cara fodido tentando mudar alguma coisa no mundo. um idiota romântico que acha que cumpre seu papel buscando a igualdade. então o senhor me pergunta: que diabos você está fazendo aqui, afinal?" eu te digo, caro professor. eu estou aqui tentando mudar toda esta sujeira que está escrita nos livros que você usa pra nos ensinar. eu estou aqui tentando limpar toda a merda que o senhor e os seus iguais fizeram no mundo, professor. eu estou aqui porque o senhor é meu inimigo e eu preciso vencê-lo revolucionando o seu pensamento. eu estou aqui porque sou um ser humano.

um constrangimento vermelho na face do professor.

um auto-orgulho no sorriso juvenil do aluno mudo que conseguiu falar.

uma sala em transe.

o sino tocou e todos acordaram.

era um novo mundo!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As crônicas de ninguém, volume 3

Chegamos ao terceiro texto das "Crônicas de ninguém", desta vez escrita pela companheira Lorena Cicari. Aliás, foi ela quem sugeriu o nome desta série. Segue:
Quantas ondas pra se afogar?

Por Lorena Cicari

- Comece de novo.

- Mas por quê? Pra mim estava tudo certo!

- Não, é melhor recomeçar, você deu uma vacilada logo no início.

- Certo, tudo bem, você é quem manda. Mas eu não percebi nenhuma vacilada.

- Você nunca percebe, né? Nunca presta atenção no que eu falo. Vai... de novo.

- Agora eu não quero tentar de novo. Você sempre tentar entender a coisa certa a se fazer.

- Claro. Não é assim que as coisas devem ser?

- Não. Não devem ser assim não. Nem sempre você tem de ter certeza do que está fazendo, oras...

- Mas se eu não tiver certeza, como posso saber o que vai acontecer?

- Mas para quê saber? A gente já sabe de tanta coisa. Imagina como seriam os nossos dias se a gente não soubesse que depois que o sol vai embora ele volta.

- Uai. A gente ficaria com medo, não?

- Medo? Não, expectativa. A gente criaria, inventaria...

- Mas... foi assim mesmo que fizeram Deus e escreveram a Bíblia.

- E dai? Olha só? Mitos duram muito mais do que verdades. As pessoas se esquecem da verdade. Elas enjoam da verdade. A verdade vira rotina.

- Rotina é bom. É bom saber que o sol vai embora, mas volta.

- Por que é bom saber disso? Segurança demais.

- Como você quer se programar se não sabe o que vai acontecer antes disso? Não pode dar chance ao acaso.

- Ah! Eu não me interesso muito em saber no que vão dar as coisas. Gosto de imaginar como devem ser, e o que podem ser... O melhor é saber que algo pode mudar, mesmo que não mude. Mesmo que seja do mesmo jeito que sempre foi. Pra isso eu tenho a cuca...

- Mas só de imaginação não dá para viver.

- Como você sabe? Alguém já morreu de imaginação ou você imaginou que não dá para viver imaginando as coisas?!

- Não tente me confundir. O melhor é saber o que virá depois do movimento.

- Então por que você gosta tanto de vir aqui jogar pedrinhas no rio? Só para ter certeza de que tudo sairá do mesmo jeito? É só por isso, meu pequeno... Amelie?

E foi isso. Isso foi tudo. Ele me levou para jogar pedras no rio, disse que eu não sabia fazer direito. Que eu nunca fazia estas coisas direito. Era só jogar as pedras, que ele tinha escolhido, no rio. Simples assim. Não havia o que inventar.

-Ah! para com isso. Joga, e veremos quem consegue mais “anéis”, minha cabecinha dura.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As crônicas de ninguém - volume 2

Continuando a série iniciada na semana anterior, aqui está a versão criada pelo companheiro Ramon.
Perfeitamente...

por Ramon Mapa

- Comece de novo.

- Mas por quê? Pra mim tava tudo certo!

- Não, é melhor recomeçar, você deu uma vacilada logo no início.

- Certo, tudo bem, você é quem manda. Mas eu não percebi nenhuma vacilada.

E ele não estava mentindo quando disse que não percebia nada de errado. Refez todo o processo, todo o caminho, todas as proposições, hipóteses, problemas e métodos, mas o resultado insistia em ser o mesmo. Já era o terceiro mês, e, se não fosse só trabalho aquilo poderia ser visto como uma obsessão. No fim, não era tão diferente da rotina que sempre levara, salvo o fato de que ele sabia que em alguma parte de tudo aquilo ele estava errando, mesmo que não percebesse onde. Não precisava perguntar aos seus superiores se o trabalho precisava ser refeito, como o processo era sempre o mesmo, já sabia disso. E sabia também que não havia outro modo daquilo ser feito, então, refazia. No quarto mês os dedos ficaram nodosos e amarelos de fumar um cigarro atrás do outro enquanto trabalhava. Precisava repetir o processo original em todos os seus detalhes, cada móvel numa determinada posição, cada quadro torto do jeito que estava naquele dia. No quinto mês começou a se preocupar com o tempo em que gastava realizando aquele trabalho. Cronometrar teria se tornado outra obsessão se um cronômetro não afetasse o cenário original. Mas uma coisa lhe preocupava: porque não vinham dizer que seu trabalho ainda estava errado? Porque não apontavam e reapontavam a vacilada inicial que dera início a tudo aquilo? No fundo sabia que aquele diálogo com o patrão havia disparado um gatilho oculto, que revelava um transtorno, uma perturbação, uma obsessão pela repetição constante e fiel daquele dia, do dia em que falhou. No fundo sabia que sempre alimentara uma vontade inconfessável de errar, vontade essa que a barba bem feita e a gravata sempre novinha não deixavam aparecer. Sabia que soterrava suas imperfeições e que um dia elas sairiam. O fato de terem aparecido como uma doença só tornou tudo melhor, agora sim ele podia dizer que vacilava, que errava. Agora sim ele podia se assumir falível. Perfeitamente imperfeito, todos os dias.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

As crônicas de ninguém - Volume 1

Como anunciado no post anterior, começa agora nossa experiência colaborativa. Para iniciar a série, aqui está o primeiro texto, escrito pela convidada Luana Bernardes. Começamos com o pé direito.

Conto de Principiante


por Luana Bernardes*

- Comece de novo.

- Mas por quê? Pra mim tava tudo certo!

- Não, é melhor recomeçar, você deu uma vacilada logo no início.

- Certo, tudo bem, você é quem manda. Mas eu não percebi nenhuma vacilada.

- Talvez eu mate a protagonista na página dois então. E depois vá refazendo o percurso de sua morte até o final da história...

- Lamento dizer mas essa história já foi contada, doçura.

- Não se ela própria tiver forjado a sua morte apenas pelo impulso sádico de assistir o sofrimento dos entes queridos no seu funeral. Ou ainda, talvez ela tenha forjado a sua morte para se livrar das dívidas contraídas nas mesas de poker dos becos obscuros Glasgow, morta, teria seu nome honrado outra vez... quiçá ainda...

- Por Deus! Feche o seu fluxo de ideias aleatórias porque agora elas estão vindo rápido demais. Afinal, você ainda quer a minha ajuda para escrever esse roteiro imbecil, não quer?

- Principiantes iguais a mim matariam para estar no meu lugar...

- Agradeço o reconhecimento, mas ainda está cedo para os elogios. No momento apenas tente preecher essas folhas novamente, sim?

- Folhas em branco... suspiro permanente de todo artista. Marco da falta de inspiração, terror noturno de todos nós!

- A inspiração nada mais é do que uma dama caprichosa. Anote aí. Convide-a para um drinque sempre que ela lhe telefonar. Dance, flerte bastante com ela e aos poucos, mesmo que a contragosto, lhe visitará com mais frequência. Entendeu? Agora volte ao trabalho. Serei seu tutor para esses assuntos tediosos enquanto houver whisky nessa garrafa e madeira na minha lareira. Depois disso, a noite ainda será longa, certo meu anjo?

" Fugiu para Glasgow onde se casou com um velho escocês de barriga e bigode igualmente avantajados que lhe prometera aconchegante casa no campo com lareira. Matou-o tão logo a companhia do velho e seu cheiro repulsivo de whisky matinal não lhe eram mais suportáveis. Era chegada a hora de deixar que a pistola de calibre 22 a salvasse de morrer aspirando tão asqueroso ar. Tingiu novamente os cabelos de vermelho cereja enquanto decidia o que fazer com o corpo do velho bonachão. Talvez vendesse seus orgãos, talvez cozinhasse suas víceras e servisse aos vizinhos sempre tão solícitos, talvez desse os ossos para Ernesto, o cão de guarda mais obeso que já vira, e depois enterrasse o corpo no quintal. De qualquer forma, o cheiro de whisky do velho escocês repugnante, jamais sentiria outra vez..."

*Luana Bernardes formou-se em História pela UEM em 2009, é professora do Ensino Fundamental e pós graduanda em Psicopedagogia pela mesma universidade. Carrega muitos vícios que são inerentes à sua personalidade entre eles a cinefilia (com o qual gasta boa parte do seu salário), a cafeína e a música, do clássico ao velho rock, adora séries de TV e não dispensa um bom sitcom. Também nutre carinho especial por crianças, cachorros, coisas confortáveis e coloridas como pijamas e meias...ah sim, dormir é sem dúvidas seu esporte predileto. Está aprendendo a tocar violão e sonha ser a feliz proprietária de uma escola, um cineclube ou de um canil - ou então dos três...
Links da Autora:
Quinto Take
Empty Mind
Rascunhando Textos






quinta-feira, 16 de setembro de 2010

As crônicas de ninguém

Começaremos uma nova série aqui neste blog. São as "Crônicas de ninguém", textos colaborativos em que um autor propõe o início, e cada um dos outros finaliza de acordo com seu estilo, sua criatividade, sua imaginação de como aquela história vai se desenrolar.

O início do texto é assim:

- Comece de novo.

- Mas por quê? Pra mim estava tudo certo!

- Não, é melhor recomeçar, você deu uma vacilada logo no início.

- Certo, tudo bem, você é quem manda. Mas eu não percebi nenhuma vacilada.

O restante ficou a cargo dos nossos colaboradores, incluindo nossa convidada, que vocês conhecerão oportunamente. Divirtam-se com as crônicas de ninguém!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A liberdade de um parágrafo só

Após um grande período sem a presença de convidados, temos um novo texto de alguém de fora do nosso coletivo. A amiga Madý assina este novo texto, feito sob encomenda para nossa Marmita Filosófica. E nossas novidades não se encerram por aqui. Para os próximos dias, aguardem mais um novo material no nosso coletivo.
"A liberdade de um parágrafo só", por Madý*

Depois de duas horas de conversa, Joãozinho meteu-se a falar do que era ser livre. Ele dizia que queria viajar, que queria aprender outros idiomas, que queria comer chocolate suíço porque era mais saudável que o Talento que tantas vezes Mariazinha lhe dera. Falou, falou, falou. Por vezes, disse que o fato de não preocupar-se com quanto lhe restaria em conta a cada vez que comesse em algum restaurante caro também era liberdade. Disse também que queria ter uma casa em cada canto do mundo, que queria que seu projeto artístico chegasse a tal ponto, que inúmeras pessoas trabalhariam em consonância e pelo mesmo objetivo sem que ele precisasse abrir a boca para direcioná-las. Joãozinho era admirável por querer tantas coisas sem pensar que eram quase nada e sem pensar que já sacrificava sua liberdade ao querê-las. Já Mariazinha estava mais preocupada em ter um real todo dia para tomar café na faculdade, não ser assaltada quando saísse de casa e não precisar pagar vinte cafés a cada vez que voltasse da balada. Mariazinha não queria nada além de poder estudar sem se preocupar com quanto teria em conta no mês seguinte. Mariazinha queria logo que abrissem um concurso público, para fazer de sua formação alguma coisa que realmente fosse resultar em algo maior que um TCC mal escrito. Mariazinha queria, claro, que Joãozinho fosse livre à sua maneira, mas Mariazinha sabia que, assim como ela que não queria quase nada, Joãozinho estava muito, muito longe de ser livre. E ainda estariam muito longe, mesmo que seus sonhos se reduzissem a uma barra de Talento de avelã depois do café de um real do intervalo ou duas horas diárias de conversa. E esta liberdade, pobres coitados, eles já tinham e nem se davam conta...


*Madý é estudante de filosofia, produtora de conteúdo e aspirante à baterista nas horas vagas. Mantém o blog Desabrido, um TCC, um projeto de mestrado, o projeto de uma graduação e, quando sobra tempo, uma vida altamente mais ou menos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Até amanhã...

Aí você me diz mil coisas, sobre crescer, tomar responsabilidades, amadurecer. Aí você aponta o dedo pra mim, diz que minhas roupas estão velhas, que preciso fazer a barba. Conta um monte de exemplos de outros: como foram mais heróicos, mais fortes e corajosos que eu, como criaram filhos sozinhos, nunca perderam um emprego, superaram cânceres, queda de cabelo e outras merdas. E aí você me obriga a te olhar nos olhos, e faz de conta que não se importa com o fato dos meus estarem marejados, chega até a me puxar pelo queixo, com força, cravando as unhas de leve pra eu entender que a coisa é séria dessa vez. Você se esforça pra esconder o decote, acha que pode me distrair, tem certeza que eu sou um idiota fútil, mas eu tento não ser, juro que tento. Você agora anda pela sala, bate o salto no assoalho pra mostrar que está se impondo, e eu acho que agora vai pegar algo pra lançar contra mim, mas eu sei que não vai, não é seu estilo, você não quer me ver sangrar, nem me machucar fisicamente, quer me ver mau, pra baixo, triste e arrependido, mas eu não sei do que me arrepender, eu sou só um cara que tenta. Que tenta não ser um idiota fútil, que tenta andar na linha, escovar os dentes três vezes ao dia. Sou um cara que tenta acreditar em deus, ter paciência com velhos e crianças, que tenta não gastar mais dinheiro do que ganha, que tenta ganhar mais dinheiro. Só um cara que tenta não dizer que detesta a sua comida, e que você não está mais tão jovem. Sou só um cara que tenta não esquecer seu aniversário, mas que acaba esquecendo, porque estava tentando fazer ou ser alguma outra coisa pra você e para o mundo. Sou sempre esse cara aí que só te olha com olhos marejados tentando descobrir porque está sendo xingado dessa vez. E, sinceramente, eu acho uma merda te amar do jeito que te amo. Acho uma merda depender de você existir, porque você não me faz feliz, você me deixa doente, porque você também é assim. E chega de bater os saltos no piso, eu ainda estou pagando por essa merda. Quer umas palavras sobre maturidade e respeito? Quer? Você quer? Pois bem, eu, eu não as tenho...eu não tenho nada, nada além de olhos marejados e um assoalho riscado sendo pago à prestações. E será que você não vê que é por isso, que é por isso que não tenho como ser o que você quer de mim, o que espera de mim? Eu vejo tudo isso, será que você não vê? É tão claro e tão dolorido. Ok, ok...vou me sentar aqui e ouvir até você parar de falar, mas não aguento mais, quero escovar os dentes e ir deitar, amanhã acordo as cinco, você sabe disso. Você tá cansada também, porque não desiste disso? Vai tomar um banho, ligar pro seu amante, pra suas amigas. Tá tudo certo comigo, tudo bem. Fico confortável aqui, sendo insignificante e cansado. Tudo bem assim? Já disse tudo? Está ótimo então, amanhã você vai com o carro, deixo a chave sobre a mesa, pego o metrô, pode deixar. Não precisa me esperar pro jantar, vou sair com o Pedro e o Marcelo, ver o jogo. Pode deixar, vou ter cuidado. Até amanhã. Te amo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O outro eu

Espelho quebrado por um soco: eu brigando comigo. Partiu. O espelho e o outro eu. Aquele que só é reflexo. Que não tem consciência. Que não consegue se esconder. Que mesmo disfarçado, se revela quando a gente fica na frente dele. Aquele lá não existe mais por inteiro. Só em estilhaços. Fragmentos do outro eu. Adeus, outro eu.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Joana

dark.
com tons de cinza descolorindo seu coração,
incendiado pela fogueira:
a marca dura e fria de sua condenação.
sua bruxaria:
ingenuidade acreditar em um mundo superior?

iludida por um heroismo
facilmente corrompido em pecado.

sufocou sentimentos,
quando não mais soube omitir
desintegrou seu medo,
transformou-o em coragem e lutou.

derramou sangue,
por amor
e fé.

quanto vale a honra
daqueles que não compreendem
as marcas que irão deixar?

não há arrependimentos pra quem
soube que errou pelos motivos certos.

a consequência inevitável de sua lembrança:
- escura, sombria, medonha, triste.
- má, cruel, melancólica,
e agora, morta pelas armas de sua esperança!

domingo, 8 de agosto de 2010

"É que gente, gente nasceu pra querer."

E era um caminho tão difícil. Não saber se queria seguir pelas estradas que pensava serem tão boas, que pudessem abrir experiências que eram ocultadas, na normalidade do dia-a-dia, àqueles que são comuns.

Ela se perguntava “qual o segredo da vida?”, mas resposta alguma fora ouvida. Naquele momento sentiu uma solidão inexplicável. Se haviam outros seres no universo? Por um frágil momento ela sentiu apenas a própria existência, não tão existente.

O vento contra as plantas, as grandes plantas sem flores de seu jardim, assustava um cachorro que caminhava perdido. Corria de um lado para o outro, procurando abrigo nas pernas, nos braços... ou escondendo-se atrás dos vasos. Mas nenhum abrigo fora revelado suficiente: o homem o enxotava, e o vaso abrigava alguma planta... que o assustava. Assim, ela sentia-se quase sempre: como um capricho singular em algum momento paralisado pela preguiça da vida em tecer mais alguma teia. Talvez estivessem ocupados com outras pessoas destinadas a vivências interessantes.

Talvez ela simplesmente não fosse suficiente para que alguém lhe escolhesse uma linha, talvez ela não valesse o tempo de um trago.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

"Eu ainda ando pelas mesmas ruas"

“Prezado Felício:

Como estão as coisas por aí? Espero e acredito que estejam bem, visto que tivemos uma boa conversa há pouco tempo. Escrevo-te esta carta para dizer que visitei Sades recentemente. Sei que já não pisas lá, e não repudio tal atitude, já que não tens motivo para tal. Sades anda cada vez mais suja. Há gente gritando pelas ruas, a maioria dizendo frases sem sentido. A maioria espera um santo que nunca vem. Talvez porque não seja santo. Talvez porque tenha perdido os poderes. Fato é que passei pelo Arquivo Central, e pesquisei na letra F, pra encontrar alguns registros dos meus discursos, no tempo em que fiz parte daquele plenário. Sabes de uma coisa, caro Felício? Senti orgulho de mim mesmo, não me furto a dizer. Não retiraria uma vírgula de tudo o que disse naquele auditório, e fico feliz por saber que tudo está registrado. Acho que já havia dito isso em uma outra conversa que tivemos, não? Pois é. Mas hoje, volto a te falar sobre isso pelo fato de termos a mesma inicial, o que fez com que eu encontrasse no mesmo arquivo vários discursos teus, além de atos teus enquanto eras membro do Conselho Regulamentador. E como eras justo, caro Felício! As opiniões eram expressas livremente, mesmo quando eram, de certa forma, desconexas. Só havia punição quando alguém cometia alguma insanidade. Rufus, o ingênuo, sempre era punido, por vezes expulso do plenário, mas nunca foi tratado com truculência.
Andei dando uma olhada pelos arquivos de discursos recentes também. Depois de nossa saída; a tua por não tolerar mais a injustiça; a minha um pouco por tédio, um pouco por nojo daquele lugar, percebo que Egydio, o jovem, e Lisandra, a bela, retornaram ao plenário. Acho que Egydio tem futuro, embora eu acredite que lhe falta foco. Já Lisandra tende a não ser levada a sério, talvez pelo brilho dos olhos, ou pelo belo sorriso que ostenta enquanto fala.
Simão, o cidadão de bem, continua por lá, cuspindo bobagens, mas não tem muita gente para apoiá-lo. Costuma brigar com as paredes. No último discurso que li, ele se lamentava de minha ausência. Não pude deixar de sorrir. Dario, o tolo, está pronunciando um pouco melhor as palavras, mas continua o mesmo. Dia desses, confessou que pulou de um precipício porque todos os seus amigos pularam, e mesmo tendo se machucado muito, o faria de novo para prestigiar os amigos. O que ele não sabia é que todos os “amigos” tinham equipamentos de salto, menos ele. E não sabia que todos estes “amigos” comentavam sobre a tolice dele nas rodas de conversa. É um tolo, sem dúvida.
A esta altura você deve estar perguntando como anda Principês. Pois bem: como sabes bem, nosso amigo conseguiu o que queria, voltou a ter um cargo alto no Conselho Regulamentador. Mas pouco aparece por lá. Na verdade, não há o que fazer por lá. Só há uma meia dúzia de loucos que realmente freqüenta o plenário, e estes não oferecem o menor perigo. Eu me pergunto: do que vale todo esse poder? De que vale poder gritar mais alto, se a única resposta será o eco?
Fico por aqui. Se tiver mais notícias de Sades, lhe reporto. Abraços fraternos”.

Fidelis Idea


*Este texto faz referência a um outro, "Let down...", escrito pela Maísa. Leia aqui.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A segunda divisão

1
Era um jogo decisivo. Apenas quatro times subiriam para a primeira divisão. O time estava em quinto lugar. Precisava de apenas um ponto para se classificar e desbancar o rival que estava na quarta posição. Naquele momento, perdia por um a zero. Um pênalti. No final do jogo. A redenção poderia vir naquele momento. O atacante pegou a bola, chamando para si a responsabilidade. Veterano, já beirava os trinta e três anos. Ainda não pensava em se aposentar. Com razoável sucesso em times grandes do Brasil e da Europa, chegou um momento em que não havia mais propostas de clubes de expressão, e ele acabou aceitando jogar naquele clube médio. Colocou a bola no chão, olhou para o goleiro. Pensou no seu salário. Era razoável. Mas estava atrasado havia três semanas. Pensou sobre a importância daquele pênalti. Pensou no ano seguinte. Seria ele o titular do time na primeira divisão? Provavelmente não. Com mais dinheiro, o clube contrataria um jogador mais jovem, revelação de algum outro time. O que seria destinado a ele? Um prêmio pela artilharia do campeonato da segunda divisão, uma renovação de contrato por mais um período curto, um jogo de despedida? Ou a rescisão contratual, relegando-o a algum outro clube de menor expressão? E se mais nenhum clube se interessasse? Pensou nos outros jogadores. Alguns jovens, início de carreira. Teriam chance no time principal no próximo ano? Ou também seriam como ele, tendo que escolher entre serem emprestados a times de menor expressão ou correrem o risco de nem serem relacionados para as partidas, se restringindo a treinos no time reserva? E nem os salários estavam sendo pagos em dia...

Ele olhou novamente em direção ao gol. O goleiro se preparava. O time adversário nem tinha mais chance no campeonato. Não havia, portanto, pressão alguma sobre o guarda-redes. Tudo que ele tinha que fazer era chutar para o gol. Seria fácil.
O juiz apitou, autorizando a cobrança. Ele tomou distância. Neste momento, pensou em Roberto Baggio na Copa de 94. Chutou com força, para o alto. Baixou a cabeça e saiu, sem olhar para os lados.

2

Ele sabia da presença de olheiros de dois times grandes no estádio, um do sul e um da capital. Teria que fazer uma partida excelente. E vinha fazendo. O time adversário brigava por uma vaga entre os quatro primeiros, o que garantiria o acesso à primeira divisão. O time dele não brigava por nada. Mas era a chance dele de ser visto e de conseguir um contrato em um time grande. Pensou na ascensão que teria sua carreira. Era um goleiro jovem ainda, vinte e três anos. Dez a menos que o artilheiro do campeonato, o centroavante do time adversário, que não acertara um chute desde o início da partida. Todos os chutes foram defendidos com primor. E o time ganhava por um a zero. Eis que, quase no final da partida, o zagueiro à sua frente derruba o meio-campista adversário. O goleiro sabia que, se defendesse aquele pênalti, suas chances de uma grande transferência aumentariam, e muito. Aquele era o seu momento. Apertou a mão do adversário, fez uma provocação e tomou seu lugar. Ficou se movimentando até que fosse dada autorização para a cobrança. Enquanto isso ia pensando sobre a possibilidade de nova vida que se apresentava. Finalmente poderia ter dinheiro pra comprar um apartamento. Talvez um carro importado. Balada? Não, precisava tomar juízo. Havia se casado recentemente, precisava respeitar a mulher de sua vida. Ela iria amar a vida na capital, pensou. E caberia a ele decidir para qual clube iria. O empresário já o havia colocado a par das sondagens. Aquela partida seria fundamental para as propostas se consolidarem. Defender um pênalti, então, meu Deus, seria a glória! E ele estava otimista. Era chegado o momento. Ele esperaria o centroavante chutar e pularia para agarrar a bola, para o lado que ela fosse. Estava preparado. Tudo certo! O juiz apitou, autorizando. O jogador tomou distância e chutou. Para o alto! Todos os jogadores correram, enquanto o cobrador do pênalti se afastava, cabeça baixa. Foi bom para o time, que garantiu a vitória. Mas o goleiro não se conformava, xingava o adversário. Faltavam dois minutos para o final da partida. Botou a mão na coxa, caiu, simulando uma contusão. Não queria mais estar ali. Para ele, o jogo havia acabado.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

E o cavalo não 'flosofa' mais...


Dos meus colegas marmiteiros eu sou provavelmente o menos qualificado para falar de futebol. Admito que a cada ano que passa é um esporte que me emociona menos. Mas pra não incidir em uma tal heresia em uma época que só se fala disso não vou tecer muitas considerações acerca do esporte erroneamente alcunhado de bretão. Erroneamente porque as origens remotas do futebol não têm nada da afetação aristocrática inglesa. Em verdade os ingleses criaram as regras do futebol moderno, mas na antiga China um esporte parecido já era praticado como treino militar. Também usavam somente os pés e existiam duas traves como meta. A diferença é que ao invés de bola chutavam cabeças de inimigos derrotados. Violência é algo inerente ao futebol, pensar o contrário é esquecer a catarse necessária que o esporte representa em nome de um cinismo disfarçado de predileção ao tal "futebol arte". Até acho o Rugby um esporte mais trágico que o futebol. Trágico aqui num sentido próximo ao que os gregos conferiam ao termo. Há um conflito inerente ao Rugby. É mais atávico que o futebol porque nele a violência não só é permitida como incentivada, mas é mais progressista que o futebol pois permite o uso do polegar opositor, essa maravilha que a mamãe natureza demorou milhões de anos para nos dar. Poooooiiiissss bem. Não é pra contar essas piadas infames que estou aqui. Na verdade é pra falar de algo mais infame ainda. A falta de maturidade existencial no discurso campeão da nossa seleção. Imaturidade que fica clara na forma que Dunga dispersa frases prontas de um autor de auto-ajuda, Augusto Cury. Um palavriado vazio e bobo, que assim como orações de quermesse só motivam ou confortam os fracos e os incapazes. É besteira do nível de: 'trate a todos como protagonistas no teatro da vida', ou o 'destino é uma questão de escolha'. Ainda que isso só reafirme minha posição de que pessoas envolvidas com futebol deveriam, por uma questão de dignidade, se omitir de dar entrevistas, já que é honroso evitar provocar tamanha vergonha alheia, há algo mais podre nisso tudo. Primeiro porque Dunga abandona o seu costumeiro e arredio discurso sobre esforço, resultado, superação e blablablas, pra disparar esse mingau azedo com pitadas de exoterismo psiquiátrico barato. E, segundo, porque isso cola! Não que o Cury vá vender mais livros por conta disso ou algo assim. O problema é que se o Brasil vence a Copa essa 'filosofia' de comadres velhas será vista como a chave que faltava para destrancar a rebimboca da parafuseta de nossa ordem e progresso. E dá-lhe mais cinismo e mais bunda molismo numa país que decididamente já tem mais do que o suficiente disso. Não se trata aqui de superestimar os ecos do que Dunga diz ou faz. Não é segredo que o povo brasileiro projeta em seu futebol suas melhores qualidades, e pretende ver nesse futebol um espelho ampliado de suas potencialidades, ainda que seja ele, o povo brasileiro, que tenha que se adaptar à imagem do espelho, e não o contrário. Claro que ainda resistem resquícios do velho Dunga, rabugento e mau humorado, bagual, chucro, que não acha que o destino é mera escolha, mas uma construção azeitada com suor e raça. Confesso que preferia esse Dunga cavalão, sério e carrancudo. Tinha ali uma quase sapiência, como a do cavalo que 'flosofava' do Guimarães Rosa, e que não perdia seu tempo com relinches de auto-ajuda, que mais que nossa insegurança, revelam nossa imaturidade.

sábado, 19 de junho de 2010

Puta excesso de sacanagem

*Escrito por .má oliveira e Lorena Cicari.

Nem toda beleza é visível apenas nessa camada externa que todos veem com tanta facilidade. Existem os belos homens que são simplesmente homens belos; mas existem outros homens que são capazes de mexer com algum sentimento tão desmedido em nós, que não nos vemos sem eles, sem seus olhos, suas mãos, suas personagens, vozes e palavras. Homens que nos deram tanto e, por força do silêncio, nada nunca pediram, mas aos quais daríamos tudo o que pudéssemos. Homens que nos fazem crer que somos muito mais do que forma, somos conteúdo. Somos o vinho que é uma benção, não por ser vinho, mas por ser o que liberta quem o bebe, que, vagarosamente, pode saborear, como uma dádiva à mente, da escolha, da criação da imaginação. Belezas não óbvias - que para nós são até óbvias demais - pra se encaixarem só no conceito comum de beleza. O além. O mistério belo e incerto do mesmo belo. Enxergar estas entrelinhas da própria beleza, contemplar o significado que só os olhos formados pela cultura atual não conseguem distinguir, forçar este exercício é conviver com a arte da realidade criada por si mesmo. Viver a liberdade de estabelecer os próprios conceitos .

Johnny Depp




















Benicio Del Toro




















Sean Penn


















Heath Ledger



















Brad Pitt


















Rodrigo Santoro















Javier Bardem

Chico Buarque













Edward Norton



















Robert de Niro




















Andy Garcia

















Al Pacino



















Mike Patton


















quinta-feira, 17 de junho de 2010

"Seja no que despertou..."

Cá estou, perdida no tempo. Tempo certo, o melhor da vida, dizem. A hora exata para eu poder Ser, para eu me fazer... Refazer-se?! Não há tempo, dizem.

Ele disse que não existe sem ela (ou ele), eu sim. Não me vejo mais, não sei de qual delas (de mim) escreve agora. Será a que tu amas, ou será a que tu odeias?! Dói, corrói teu peito saber que eu posso sair, naquele dia em que me preparou uma surpresa, e não voltar jamais. Nunca mais. Nunca. Nunca. De tanto ardor, nunca mais existir. Acabar para existir. Acho que alguém cantou algo assim. Deixar de ser para se tornar. Tornar algo para nunca mais ter de ser nada. Nada! Sempre o nada. Ser nada. Fazer nada. Prometer nada. Ter nada... Tudo. Todo..o nada. Disseram que só uma existência pode ser completa e ter fim e começo e meio em si mesma, o Nada. O nada em si é a única forma de ser total. À procura de ser completo é a busca por nada, nada ser.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O abutre e a esposa morta


Ele jogava as chaves para o alto e pegava no ar evitando olhar pra elas. Cantarolava mentalmente uma canção no ritmo monótono do bater das chaves, um 4x4 perfeitamente duro e chato. Seus olhos, fugindo das chaves, percorriam o quarto e o corpo nu à sua frente. Mesmo azulada ela continuava linda.Desejava-a nesse momento como da primeira vez que a viu, e mesmo com os buracos de bala molhando de sangue a cama desarrumada ela continuava sendo a mulher de sua vida, tudo o que sempre quis. Tentava se concentrar nas lembranças. Da primeira vez que conversaram, de cozinhar pra ela, trocar pneu na chuva. Lembrava da primeira noite de sexo, da falta de jeito misturada com um tesão louco, uma vontade de canibalizar aquele corpo, de fazê-lo em pedaços com os dentes e unhas, enquanto gozava gritando, alto, salivar, blasfêmo. Amava os cabelos dela, e a forma que desenhavam os ombros, amava seu pescoço e suas pernas, seu púbis e todos os segredos que enxergava naquele corpo e que recitava sorrindo freneticamente ao se masturbar no chuveiro. Quando se casaram ela estava mais linda que nunca, e tudo nela convidava ao crime e ao abuso e tudo depois daquele dia manteve aquele cheiro e aquela cor, algo meio pecaminoso, como uma planta carnívora ou o dorso nu do deus morto na cruz. Seis anos depois seu desejo por ela estava cada vez maior, como um vício mórbido, inconfessável, cultivado no morno do cobertor, nos cantos de parede. Ficava ao seu lado, olhando seu dorso de mover durante o sono, vi-a no escuro absoluto, com olhos griz de abutre. No sétimo aniversário foram a um motel. Fizeram aquele amor canibal da primeira vez. Gozou na barriga dela enquanto ela sorria de olhos fechados. Ela virou de bruços, limpando a porra no lençol e se aninhando para dormir. Ele tomou um banho e se vestiu, abriu a pasta e pegou a arma, comprada na praça sete por 150 reais. Dois tiros nas costas, ela não gemeu nem abriu os olhos. Morta. Agora era esperar o desejo ir embora com o sangue escorrendo, e com o tilintar monótono das chaves na palma da mão.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Arco-íris

Ela vinha caminhando com seus passos refletidos na areia úmida que há pouco recebia o improviso das ondas do mar. Assim como a onda, ela se mostrava passageira.

Ela vinha caminhando num balanço cambaleante e despretensioso, cabelos jogados. Parecia dançar ofuscando o brilho do sol.
Trazia junto a ela um dia nublado, cinza. Um tempo diferente e o colorido só existia na fita amarrada em seu pulso nas cores de um arco-íris.

Ela vinha sorrindo para o horizonte e esclarecia a quem a visse sua incerteza e despreocupação quanto ao destino.
Sua doce perfeição.

Enquanto vinha, sem deixar de caminhar, olhou e sorriu me dizendo: - vem comigo?
No olhar trazia uma mensagem: ela foi a lugares que nunca estive.

Como eu poderia acompanhá-la? Diante da liberdade que ela inocentemente me obrigava a ver mesmo não dizendo com palavras. Liberdade que mostrou-me ser possível. Diante da possibilidade que eu não suportava do poder de escolha. Ah, a pressão da escolha!
Como eu poderia? Diante de todos os meus medos, meus preconceitos, minha mesquinharia. Minha covardia!

Ela sumiu na escuridão de uma chuva que se anunciava. Distante eu só via... a fita, as cores do arco-íris.
Maldito arco-íris!

terça-feira, 18 de maio de 2010

A memória que esquecemos

Onde está a máquina que registra nossas inquietações?
E o scanner que captura nossas dúvidas?
Cadê o gravador de nossas lástimas?
Cadê o filtro que dilui nossas culpas?

Em que tipo de papel foi escrita nossa história?
Quantos megabytes tem nosso disco de memória?
Qual é o sistema que processa nossos dados?
Em que programa eles foram formatados?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Julgamento final

- Se eu lhe contar o segredo voltará para me buscar?

- Sim, diga logo. Você está muito machucado, sangrando, precisa de ajuda.

- Eu sei que sua preocupação real não é esta. Não pode fazer nada por mim se não tiver como voltar, eu sei. Não sei como conviveremos com isso. Sempre disse que você deveria crescer e parar um pouco de avançar limites que desconhece. Por que diabos pulou de paraquedas em cima da casa de madeira se sabia que eu estava aqui?

- Não foi planejado, você sabe. Me diga logo.

- Estou sem alternativas, então ouça: trará ajuda e como bem sabe, não há como esconder o que ocorreu. Mas se trata de minha vida e vou tentar defendê-lo como puder. Gire aquela manivela até o fim, vá até aquele outro lado e quando a estante de livros se afastar, empurre.

- Tudo bem. Volto em instantes. Vai ficar bem?

- Se eu não tivesse soterrado por escombros por sua culpa, eu poderia aguentar melhor. Vá logo.

Ao passar pela porta, sentiu que o prédio balançara e junto um peso na consciência. Reconhecia toda a responsabilidade pela tragédia e sabia que precisava ajudar o companheiro, mas sentia medo. Nunca esteve acostumado a pensar com seriedade e agora a agonia do que podia acontecer o impossibilitava de fazer o óbvio. Estavam igualmente presos, mas só um tinha a escolha. Um homem soterrado nas madeiras de uma casa velha, e o outro soterrado no pânico ingênuo de uma alma jovem demais.
Ninguém sabe se ele voltou. Ninguém sabe se salvou. Ninguém sabe...

terça-feira, 4 de maio de 2010

"Joga pedra na Geni, joga merda na Geni... maldita Geni."

- Alô!
- Fê, é o Ricardo. Vamos sair hoje? Tem uma festa p’ra gente ir. Open bar.
- Ricardoooo. Claro. Estou mesmo sem nada para fazer.

Sim, Ricardo estava se tornando um bom amigo. Ele sabia que eu o tinha em grande estima, como amigo. Eu não era muito de namorar, não gostava. Mas sempre adorei dançar e beber. Não via motivos óbvios para recusar um convite de um amigo, para beber e dançar, então fui com ele a tal festa. Confesso, até, que o achei um tanto quanto solícito demais, mas pensei que fosse pela distância (não nos víamos há certo tempo. Ele morava numa cidade diferente da minha). Quando chegamos à festa, sentamos numa mesinha e começamos a beber. Disputávamos doses, quem tomava mais. Sempre fui uma excelente consumidora de doses. Era uma disputa acirrada. Ficamos nas tequilas. Entre vira-viras e conversas, a gente dançava. Era como ‘limpar’ o corpo para mais uma rodada. Foi muito divertido. Dançamos muito, de forma sensual. Foi engraçado porque resolvemos encenar, dançando, toda aquela sensualidade que existe quando ‘Antônio Banderas e Salma Hayek’ fazem um par romântico. Era uma cena de filme dançante (sim, sempre gostei de filmes. E sempre tive a mania de dançar imitando algum casal ou alguma cena. Já dancei até imitando a cena da ‘banheira’ do filme ‘psicose’.). A noite foi passando, as doses foram entrando no corpo e embaraçando os nossos sentidos. Em uma determinada hora, eu já estava cansada. Não estava bêbada, estava apenas tonta. Mas, depois de dançar a noite toda era justo eu estar cansada. Pedi ao Ricardo para que fôssemos embora. Quando estávamos saindo, um amigo dele apareceu e pediu carona. Fomos os três embora.

Fui no banco de trás do carro, estava com muito sono. Pedi ao Ricardo, então, que me acordassem quando chegassem à minha casa. Fui acordada, mas não em casa. Não sabia onde estava. Eles me arrastaram pra dentro da casa, e trancaram as portas. Eu desesperei, um pouco, ainda confiava numa explicação lógica por parte do meu amigo. Mas ele não se explicou. Aproximou-se de mim e disse “fiquei com vontade de foder com você. Você me deixou louco.”. Eu fiquei espantada, disse a ele que não queria. Que eu nunca dei a entender que teria algo com ele. E foi ai que o outro cara aparece e disse “não será só com ele que você foderá hoje. Vamos nos amar, benzinho.”. Não senti medo. Senti nojo. Minha alma estava em pedaços, carregada de ódio. Tentei encontrar uma saída, mas o Ricardo veio e me agarrou, me segurou enquanto seu amigo arrancava minha roupa e dizia toda e qualquer obscenidade para ‘me agradar’. Sua língua no meu corpo, suas mãos rasgando minha dignidade, ferindo minha existência. Me carregaram pra cama e prenderam minhas mãos na cabeceira da cama. Um e depois o outro; e depois o um; e depois o outro. Violaram minha boca, meus olhos, minha alma. Sujaram meu corpo e macularam minha humanidade. Gozaram em mim, e me fizeram sangrar. A dor física era imensa. Não havia delicadeza, claro. Eu era uma boneca onde eles metiam seus paus até que se esgotassem os espaços, e forçavam mais um pouco. Um e depois o outro; e depois o um. Quando enjoaram da boceta me amarraram de costas. Eu nunca tinha feito sexo anal. Foi uma dor lancinante. Um e depois o outro; e depois o um e o outro. Ouvi um deles dizer (nessa hora que eu já não sabia mais qual a voz de qual estuprador) “essa vadia tá sangrando por todos os lados. Melhor a gente parar. Já gozei demais nessa puta.”. E me vestiram. Eu estava imóvel. Pegaram uma garrafa de vodka e derramaram em mim “cu de bêbada não tem dono mesmo. Vão achar que ela fez por onde”.

Me deixaram na porta de casa, jogada. De manhã, alguém me acordou. O alguém me conhecia, chamaram meus pais. Contei a história e minha mãe disse “sim, cu de bêbado não tem dono. Se mulher bebe e dança desse jeito, ta pedindo pra ser estuprada sim. Você não vai fazer nada. Melhor para você é ficar quieta. Ninguém vai acreditar e vão achar que você pegou AIDS e é vagabunda. Agora toma conta de si mesma. E fica na sua. Caso contrário vai arrumar mais problema para você. Você sabe que os homens são assim mesmo. Eles acham que têm direito a tudo. Ainda mais quando a mulher facilita. Ninguém vai acreditar em você. Vão achar que você é mais uma vadiazinha que fica fazendo manha com homem, afinal de contas, o Ricardo era íntimo seu. E com essa sua mania de ‘independência feminina, dirão que você quis fazer esse tal de menage. Por isso eu digo: arruma um marido e casa logo. Assim você estará protegida.”.

A família em peso nos Mojo Singles

A nossa integrante Maísa estreia avassaladora em seu primeiro trabalho-solo na Mojo Books, com o Single "Last Call", do Elliott Smith. Leia aqui.

Ramon Mapa também teve seu "Until it sleeps", do Metallica, publicado no site. Leia aqui.

Aproveitando que está no site, se ainda não conferiu, confira "Balada de Agosto", de Fagner e Zeca Baleiro, por Lorena Cicari, aqui.

E também, o último deste que vos escreve: "For no one", dos Beatles, por Márcio Viana, aqui.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O silêncio ensurdecedor

Josué ganhava no grito. E se orgulhava disso. Cada discussão, cada conversa no bar, cada divergência no trabalho, ele terminava deixando o oponente sem ter o que dizer. “Você viu, Tobias, deixei o seu Vieira quietinho. Tava na hora daquele velho baixar a bola”.
Seu Vieira era o encarregado da produção. Ele tinha um caderninho, em que anotava todas as infrações dos empregados. Seu Vieira nunca dava advertência, verbal ou escrita. Mas anotava no caderninho. Um dia, alguém poderia pegar o caderninho dele e escrever a história daquela fábrica.
Em casa era a mesma coisa. Josué discutia com a Lavínia, morena bonita que ele conheceu na quermesse da cidade e em menos de um mês já estava na vida dele, como esposa e empregada. Lavínia era uma lutadora, sem saber. As olheiras tiravam um pouco da cara de menina, dezenove anos ainda. E era sempre assim. Josué chegava, perguntava da janta, reclamava. Dizia que ela não fazia nada direito. E ela se calava. Baixava os olhos e nada dizia. Isso para ele era uma vitória. “Quem cala, consente”, não era assim o ditado? Durante o dia, enquanto Josué trabalhava, Lavínia chorava. Um pouco antes de ele chegar, lavava o rosto e fingia normalidade.
E Josué continuava sentindo prazer em silenciar as pessoas. No bar, ele impunha sua opinião. Ferrenho defensor do regime militar, ele achava que só uma nova ditadura poderia consertar o país. E ai de quem discordasse! Ele levantava o tom de voz, falava até se cansarem de discutir, saía do bar na hora de fechar, com um ar vitorioso.
O que ele não sabia é que o silêncio das pessoas não era uma admissão de derrota. Era desistência.
Na segunda-feira, Josué chegou ao trabalho e foi procurar o seu Vieira, pra saber sobre o serviço: “E aí, seu Vieira, o que nós vamos fazer hoje?”. “Nada, Josué”, disse o encarregado, para surpresa do falador. “Hoje não tenho nada pra você. Mas fica aí, pode ser que apareça uma tarefa”. E o dia todo foi assim. Josué passeava por entre as máquinas, conversava com os outros funcionários, perguntava se precisavam de ajuda. “Não, Josué”, diziam. “Tá tudo certo, não precisa ajudar, não”. E ele não entendia: por que estava ali se não precisavam dele? Tentava engatar uma conversa com alguém, as pessoas se esquivavam, alegavam excesso de trabalho. Ele não entendia: se todo mundo tinha trabalho demais, por que ele estava parado?
No fim de tarde, passou no bar. Fechado. “Que estranho... o seu Pedro nunca fecha tão cedo... será que aconteceu alguma coisa?”. Resolveu ir para casa. “Tomara que a Lavínia já tenha feito a janta. Tô com fome”.
Ao entrar, estranhou a ausência do som do rádio, que a moça sempre deixava ligado, e que ele sempre desligava com um xingamento, uma reclamação pelo barulho. Chamou-a pelo nome. Nada. Olhou por todos os cantos. Ninguém. Ah, mas ela ia ver quando chegasse. Onde já se viu, sair assim sem avisar? Mas ela não chegava. Foi passando a noite, e nada. Amanhã ela ia ver, ia buscá-la casa da mãe, a puxaria pelos cabelos. E dormiu, no sofá mesmo, cansado de esperar e cansado do silêncio que imperava. Não tinha ninguém com quem reclamar.
Acordou atrasado, saiu correndo para o trabalho, ainda pensando na mulher, sem saber o que deu nela pra desaparecer assim. Foi recebido na porta, não pelo seu Vieira, e sim pelo Lima, do Pessoal. “Josué, venha comigo até o escritório”.
Lá, o Lima entregou um papel a ele. “Não precisamos mais do seu serviço”, disse o funcionário. No papel constava “demissão sem justa causa”. Josué pensou em perguntar a razão, mas achou melhor ficar calado. Eles não precisavam explicar.
Foi para casa. Tudo o que ele queria agora era encontrar com a doce Lavínia, abraçá-la e dizer tudo o que sentia. Ligou o radinho dela, mas faltava algo ali. Aquelas vozes não eram as mesmas sem ela. Ele sabia que ela não ia mais voltar. Telefonou para a casa da mãe dela, mas ela não estava lá. A mãe não deixou claro se sabia ou não do paradeiro da filha. “Você fala demais, Josué!”, disse a velha. Ele desligou o telefone sem se despedir, para não ter que concordar com a sogra.
Meses se passaram. Josué passava a maior parte do tempo em casa. O bar do seu Pedro nunca mais abriu, e ele nunca soube por que. Um bico aqui e outro ali, geralmente um trabalho pesado, bruto. Ele mesmo impunha a si próprio um ritmo acelerado. Não conversava com ninguém, nem mesmo consigo próprio. Na hora do almoço, se afastava, mal comia. Não puxava papo com quem quer que fosse. Monossilábico, fazia o que mandavam e pronto.
E foi na volta de um desses trabalhos que se deu o encontro. Ela vinha pela calçada, com um vestido chique, maquiagem, cabelo alisado. Bem diferente, sem as olheiras que tinha quando moravam juntos. Ele correu até bem perto dela, quis abraçá-la, beijá-la e perguntar por que ela fugiu. Não sabia se sorria ou se chorava, se brigava com ela ou se ajoelhava aos seus pés. Queria contar a ela tudo o que passou neste tempo em que ficou longe dela, pedir que ela voltasse. Ela olhou para ele e disse algumas coisas, mas sua voz não emitia som algum. Ele não conseguia ouvi-la, e se desesperava. E foi aí que ele percebeu. O silêncio, que ele tanto buscava nas pessoas quando queria impor sua opinião, agora o acompanhava definitivamente. Ela, notando o insucesso em argumentar, tomou seu rumo. Ele foi para casa, desolado. Ligou o rádio e os sons saíram normalmente. O mesmo ocorria com a TV. Não estava surdo, portanto. Então, por que não ouvira o que ela dizia? Ligou para a casa da sogra. O telefone mudo. Uma passada no antigo trabalho, a pretexto de rever os companheiros. Os ex-colegas o trataram com cordialidade, mas ele, transtornado, não ouvia nada do que diziam. O bar continuava fechado, mas ele encontrou na rua um dos seus debatedores dos tempos em que era empolgado com as conversas políticas. O homem, aparentemente transtornado, parecia berrar. Mas ele não ouvia nada. Desviou do homem furioso, foi embora. Achou que era hora de tomar um outro rumo. Procurou trabalho na construção civil, logo encontrou. Começou como ajudante, mas logo deu um jeito de arranjar uma vaga como operador de britadeira. E não reclamou, mesmo exposto ao barulho de cerca de 120 decibéis. Tudo para escapar do silêncio, o qual não podia mais suportar.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mulher na chuva


Recebi as fotos. Todas em branco e preto. Cenas cotidianas, alguns sorrisos, algumas olheiras, ônibus, cães e pedestres. Senti vontade de sair e descer a rua procurando os rostos familiares estampados no papel, mas não saí. Sentei na janela e acompanhei um gato pelo muro vizinho, olhei pro céu e acreditei ter visto uma pipa. Claro que não era uma pipa, não existem mais pipas. Lá embaixo sorri pro orelhão em que a vi pela primeira vez, tentando se esconder da chuva. Chamei-a pra subir. Acho que só veio pra proteger o saco de pão que trazia. Não adiantou muito. Rimos dos pães encharcados e ela secou o cabelo no meu banheiro. Trabalhávamos perto uma da outra e descobrimos que tomávamos o mesmo ônibus todos os dias. Seguimos a rotina até aceitar que estávamos apaixonadas e transformar a paixão em rotina. Juro que não foi difícil, nem ficar, nem transar, nem assumir. Nem ligar pra mãe e dizer que namorava uma menina. Foi fácil, fácil até demais. Ela adorava fotografia e adorava cinema. Eu não. Não que não gostasse, mas não me completava como a ela. Tirava fotos sempre, e sempre me mandava. As melhores revelava e me mandava por correio, nunca entregou pessoalmente, sentia vergonha, dizia ela. Decorei a casa toda com o que me mandava. Mas nunca comentava as fotos com ela, ela não gostava. Hoje chegou as últimas que enviara. De volta do correio me ligou chorando e disse que estava tudo bem. Mas não veio pro vinho, pro filme combinado, não trouxe o pão do dia seguinte. Ninguém sabe dela. E não adianta procurá-la nas fotos em branco e preto. Resta esperar. Talvez se chover o orelhão a traga de volta, com cabelos molhados e pães perdidos...pra mim...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A história das coisas

Um vídeo para compreender um pouco mais sobre os problemas sociais e ambientais, sem ser panfletário nem ecochato. Simplesmente inquietante:


Para mais informações:

terça-feira, 16 de março de 2010

"O centro de uma mesma e estranha mesa."

Era um segredo, uma daquelas verdades que a gente não pode revelar: o meu egoísmo.

Eu segui, durante todo este meu tempo de escolha de personagem, uma que eu pudesse moldar às minhas necessidades. Fui fria e intolerante; apaixonada, mas indiferente. Fiz das minhas lágrimas a única honestidade: ninguém as viu rolar, ninguém abafou o peito.

Minha personagem sempre fez da intimidade o meio para se manter só, para saber viver do lado de fora, “sozinho no tempo”.

Alguma vez alguém quis enxergar como era o meu mundo, mas ninguém mais tempo para ‘neverland’; o alguém se cansou da espera, o alguém era ‘amor senso comum’... E eu sou amor de brincadeira, um amor para ensinar e aprender a ser livre, a ser leve. Uma paixão intensa e profunda que só se permiti pequenas doses.

Da necessidade em ser discreto, para ser particular. Do amor que não precisa de um nome, sem círculo... Uma simplicidade sem endereço, sem carta, sem destinatário.


E eu não sou daqui, nunca fui de lugar nenhum;

Não sou minha e nem sou sua. Do acaso pertenço, quando me agrada;

Não me recluso num canto por pensar em alguém que conheço. Deixo-me jogada num
canto, por chorar amor à pessoa que ainda – e, talvez, nunca conheça- não sei quem é;

Não me faço fraca, para que possas embalar-me em teus braços: não preciso;

Não quero ser moderna ou tradicional;

Não preciso provar meu caráter, nem demonstrar minha fortaleza;

Choro quando choro, por mim e para mim. Não ouvirás minhas lágrimas, não saberás o
motivo de molharem meu rosto;

Não conhecerás meu sorriso, ou o porquê das minhas risadas. Me olhará sempre
procurando explicação, e se contentará com os olhos infantis e um sorriso jocoso.

- Então para quem são estes "nãos"?
- Para qualquer um.

terça-feira, 2 de março de 2010

Um tributo ao olhar

Talvez este seja um assunto para ser melhor explorado no Tersol Geral, blog do nosso comparsa Ramon. Fato é que certos olhares são mais expressivos do que uma tese de doutorado. Este é o mote do filme argentino “O segredo dos seus olhos”, que recém estreou nos cinemas brasileiros, e é um dos candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O filme conta a história de Benjamin Espósito, que ao se aposentar do cargo de funcionário de um Tribunal, resolve escrever um livro sobre um caso policial ocorrido 25 anos antes, sobre o estupro e assassinato de uma jovem recém-casada. Espósito foi quem descobriu o autor do crime.

Como disse no parágrafo anterior, são os olhos que ditam os acontecimentos do filme, como a troca de olhares entre Espósito e sua colega de trabalho, Irene. Essa troca se mostra em todos os momentos, desde a chegada de Irene ao Tribunal até o interrogatório informal que acaba por desvendar a autoria do crime brutal. Antes disso, foi um olhar em uma foto que despertou em Espósito a suspeita de quem seria o assassino.

Olhar que também surge através dos óculos do colega de seção, o alcoólatra interpretado por Guillermo Francella, que dá a tônica do humor do filme. Aliás, grande mérito do filme é unir vários gêneros em uma só história. Há o citado humor, há o suspense na investigação sobre o crime, o drama do viúvo, que se apóia em Espósito a fim de conseguir uma pena justa para o assassino, e há o romance no flerte entre o oficial de justiça e sua colega, a bela Irene.

Uma dica também é prestar atenção na simbologia da letra A durante o filme, iniciada pelo defeito na máquina de escrever do aposentado oficial de justiça, aspirante a escritor.

Um belo filme, que vale cada centavo pago no ingresso. Torço por ele na premiação do Oscar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Um adeus qualquer

No quarto fechado e abafado ela arrumava as suas coisas pra partir. Esperava que o telefone tocasse com alguma notícia que mudasse seu destino. Como ela poderia viver ou tentar ser feliz diante de tamanha tragédia? Não teve coragem de desfazer o laço que o pai amarrou no ultimo passeio juntos. Seus avós maternos, por algum motivo que ela ainda não entendia, tiravam-na de seu lar, da tão heróica companhia de seu pai para levá-la a estudos fora do país. Entendia que os avós culpassem o homem pela morte da filha deles, embora soubesse que seu pai nada tinha a ver com tudo aquilo, e desde que sua mãe descansou nos braços da morte, este nunca mais sorriu. O que não entendia e talvez nunca fosse capaz era que descontassem toda dor pessoal nela por ser apenas uma adolescente e que, nas suposições deles, era a que menos sofria diante de tudo. Enquanto enrolava o cigarro em uma toalha pra esconder de quem pudesse mexer em sua mala, uma lágrima solitária corria de seu rosto ainda infantil. Naquele momento não importava quem fosse, sentia um aperto no peito que consumia suas certezas. Ao passar pela porta, avistou seu pai esperando para dizer adeus. Seus olhos mareados, os soluços e toda tristeza escancarada em sua insatisfação em sequer dar passos rumo ao futuro; sua resignação quanto a decisão dos seus denunciavam o quanto estava infeliz. O homem que perdia seu único amor, entristecido, perguntou-a: "o que eu poderia fazer?". A resposta foi duramente suportada: 

- "eu queria que você lutasse por mim!"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O quarto círculo...


Da rotina herdei cascas impermeáveis às emoções. Solidarizar, para mim, não passa de um performativo, de um atuar, um quase-fingir (sim, porque atuar é diferente de fingir). Essa coisa maquinal, incrivelmente leve e destrutiva da repetição, da falta de sentido, tatuou em mim a mais perfeita das indiferenças. Seja escuro ou solar, dor ou conforto, a mim é insípido como promessas de santos, artigos científicos ou a "verdade" sempre imunda dos juristas. Entre juristas e santos o mundo foi reduzido a um marasmo asilar, com o cheiro já familiar dos banheiros de rodoviária. E aqui estou, pingando câncer e alma enquanto tropeço por essas descontruções ruidosas que insistimos em chamar de dias. Se não tivesse herdado da rotina essa minha indiferença, talvez me importasse com isso.


...preciso ir...hora de trabalhar...

Sobre entrelinhas, reticências e outros quetais

E se o melhor que eu puder dizer pra você seja possível apenas por meio de comunicação não-verbal? E se eu não tiver um lápis, caneta ou laptop? E se você não entender minha língua, minhas gírias, minha gagueira ou meus cacoetes? E se nada que eu disser resolver teus problemas? E se eu falar o que você não quer ouvir? E se eu me negar a falar? E se as reticências forem mais relevantes do que as palavras? E se as coisas relevantes estiverem nas entrelinhas? E se o barulho lá fora for ensurdecedor? E se o silêncio aqui dentro for amedrontador? E se nada fizer sentido? E se fizer todo sentido? E se tua educação formal não te ensinou como ser humano? E se tua humanidade não te garantiu o profissionalismo? E se eu parar de te questionar? Sua inquietação terminará? Ou sentirá falta de uma nota dissonante?


Sendo assim, me despeço. Deixo como herança algumas entrelinhas e reticências. Faça bom proveito!

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*Este texto nasceu inspirado em um outro, chamado "reticências", escrito pela Maísa há um tempo atrás. Leiam aqui.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

a conclusão é sua

De quem é esta voz que todo mundo ouve, mas ninguém percebe? É um sussurro, mas parece um mantra. Todos aprendem, todos aceitam; mas não há uma inteligência real de impedi-la porque é como se ela não existisse. Simples assim. Entram em nossas vidas, ditam valores, comportamentos, dizem-nos o que fazer; mas sua covardia nos confunde com qual parte do que acreditamos é nosso e qual parte do que acreditamos é imposto. Nos confundimos neste termo, exatamente naquele pontinho pequeno que divide dois abismos completamente diferentes. Não sabemos onde começamos, nem onde terminamos. Voz tão cruel que nos ensina a ser o que não somos e renunciar a nós mesmos. É criminoso roubar de alguém o direito de viver e existir, e vice-versa.
Incoerente que qualquer pessoa diz em algum momento da vida odiar falsidade, mas que o mundo ainda seja tão consumido por ela. Incoerente que os mesmos que compram os livros de auto-ajuda em busca do alcance de uma felicidade enlatada também comprem as revistas de beleza e comportamento. Me convence pela distorção de valores tão comum no ser humano atual e sua insatisfação pessoal que tende a cada vez mais piorar, mas ainda assim acho importante questionar.