quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Ignoring U

O texto a seguir era pra ser um single pro Mojo (http://www.mojobooks.com.br/) de uma música da Pitty do disco "Anacrônico", maaaas eu ultrapassei os limites de caracteres permitidos para o mojo e não quero assassinar meu texto, portanto, depois de ser ignorado, aqui está ele pedindo atenção.

Enquanto eu me trocava cheia de má vontade em frente ao espelho quebrado, lembrei-me de quando começamos a nos deteriorar, e foi exatamente ali, naquele canto do quarto. - Você pretendia ouvir uma resposta dependente para a sua pergunta, e não foi a que eu te dei. Estupidamente e sem me explicar nada, atirou o porta-retrato com a única foto que tínhamos juntos no espelho. Uma rachadura lateral se fez, e lá estávamos refletidos naquela imagem, separados pela primeira vez em duas metades de um mesmo espelho que nos dividia. A partir dali nunca mais fomos nós. - Entorpecida pela recordação, me troquei com pressa. Coloquei a roupa que você menos gostava e chamei um táxi, enquanto, desajeitada, vestia um casaco. Estava ansiosa, creio. Precisava saber como me comportaria depois de tanto tempo só e em casa, precisava saber se estava preparada, precisava beber alguma coisa que me suportasse naquela noite. Escolhi o mesmo blues pub de sempre e tinha a certeza de que te encontraria. Comprei chiclete na banca de jornal, estava impaciente, andando de um lado para outro e desgastando minhas botas. Acendi um cigarro e sentei na calçada pra esperar o táxi e um pensamento intrometido me veio invadir a mente vazia. Aquele comportamento de sentar-me na calçada me mostrava que realmente, eu não era mulher para você. Nunca seria o que você gostaria que eu fosse, jamais me acostumaria. No caminho para o boteco inglês, reparava aquelas ruas molhadas, o vidro embaçado e a respiração esfumaçada das pessoas que passavam lá fora. Sabia que tudo aquilo era muito decisivo pra mim. Apesar do frio, do orvalho sobre as paredes, minhas mãos suavam quando me sentei no balcão do boteco e pedi uma bebida. Não podia beber algo tão forte, mas o conhaque precisava estar comigo pra me mostrar que tenho coragem. Confesso que tive medo de me perder na bebida, me entregar, me render ao resto de você que ainda havia dentro de mim. Eu estava me salvando, me bebendo, me esmagando a cada dose exalando meu perfume com cheiro de vermelho-sangue. Fez-se silêncio entre uma música e outra, as luzes estavam mais baixas que antes e ofereceram uma música. Sem pensar muito, me levantei descontrolada ao ouvir as primeiras notas. Me levantei unicamente com o objetivo de fugir. Fugir e chorar. Chorar em paz. E quando olhei, você estava em minha frente, com os lábios praticamente encostados nos meus e me pedindo com os olhos pra voltar pra você. Por alguns minutos que pareciam eternos, minutos em câmera lenta, nós dançamos sob uma chuva de champanhe. Era uma ilusão porque na verdade, eu estava paralisada pela surpresa e não conseguia me mexer. Desviei o olhar e ainda ao som de Eric Clapton, reparei ao meu redor com suas mãos ainda envoltas em minha cintura. Me perguntei se você estava ali me esperando fracassar e pediu aquela nossa música de propósito. Vi que as outras pessoas dançavam de verdade, e que elas surpreendentemente sorriam. Percebi que aquele momento não era só dedicado à minha vida e que, todas as pessoas viviam suas vidas exatamente como eu vivia a minha: esperando o próximo minuto. Medi a distância entre mim e o salão de jogos. As pessoas lá dentro eram fortes, queriam ganhar e eram tão individuais! Com esta cena e sentindo você cheirar meu cabelo, me soltei agressivamente do seu braço e corri para aquela sala que me fazia forte. As fraquezas ficavam do lado de fora, com você lamentando pelos erros. Muito depois, quando só restou a bola branca na mesa, eu sorri um sorriso amargo e tive a certeza de que: sozinha e naquele exato instante, eu havia conseguido. Te ignorei e me sentia docemente... livre!

7 comentários:

  1. Conversa entre "editor" e escritora, via e-mail:

    "Temos um problema sério quanto ao Mojo Single: o limite para singles é de 2.000 caracteres, e o seu tem quase o dobro (!!!), 3.613. Não vejo forma de retirar uma só vírgula".

    "E agora o que eu faço quanto ao limite de caracteres? hahaha. Também não vejo como tirar nada e eu não sabia do limite. =/"

    "Não há o que fazer quanto ao texto, senão publicá-lo em um dos blogs, já que há esta restrição, e acho que seria um pecado esquartejá-lo. É um texto bom demais para permanecer 'engavetado'"

    "Onde eu publico? Quando eu publico?????????????????? :D"

    "Publica agora na Marmita Filosófica, que vai ser lindo".

    :)~

    Quando teu livro for publicado, quero escrever o prefácio.

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  2. hahahaha

    Ouuuun... claro que vc vai escrever! Já tá intimado pra isso, caso aconteça o milagre de isso um dia acontecer.

    Sabe o que é extremamente curioso? Sei que é chato contar como estas coisas nascem, porque tiram um pouco do encanto, mas eu sou estraga prazer, mesmo. Então... a idéia surgiu quando eu tava na rua ouvindo a música pelo mp4, no outro dia escrevi e depois passei pro doc (eu preciso escrever à caneta primeiro, não tem jeito). Depois de pronto, coloquei a música e comecei a ler e terminei a leitura exatamente quando a música terminou. Ou seja, é realmente grande pra caralho! E além disso, sem intenção ficou "do tamanho" da música. =)

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  3. Kafka dizia que um bom texto tem que te partir como um machado...
    vou ali pegar minha outra metade e já volto...

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  4. O Marcio comentou no meu blog sobre estar alguns "degrais" abaixo do nivel da Maisa, mas isso é exagero. E citando mais uma vez o tio da caneca, quando o livro da Maisa sair, eu quero os manuscritos... =)

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  5. Tu escreve muito bem! Adorei o texto. Deixa o Mojo de lado. Aqui tuas palavras couberam e muito!

    Beijos, linda!

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  6. "Tio da caneca". Era só o que faltava.

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  7. A escrita marcadamente feminina neste texto é maravilhosa. Como diria um amigo: "tão imagético".

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