terça-feira, 9 de junho de 2009

"Recompondo..."

Ele só queria sentir o que poderia ter do nada, ter de expectativa alguma, de obrigação mínima. Queria provar a sua própria companhia: precisava sair. Decidiu, então, levantar-se naquela manhã triste e trivial e não pensar. Não tomar nota de si, daquele si de todos os dias infelizes. Ele virou-se para o lado e o viu, estava tão medonho, tão íntimo, tão só; não agüentou vê-lo descaradamente compreendido, e relevantemente não enigmático; a vida tinha se transformado em, apenas, uma seqüência de dias iguais. Ele lembrou-se de que eram o que não deveriam ser, que eram contrários e eram contra. Tornaram um ao outro um casal comum, um casal chato, sem graça, sem particularidades, sem desbravamentos. Ele não mais suportava. Vestiu-se apressadamente, como de costume, e pôs-se a cantarolar algo indecifrável. Foi até a cozinha, preparou o café, como de costume, colocou os pães, o suco, o bule de café, o bolo, as xícaras, como de costume, sobre a mesa. Deu um gole a seco no café forte, e saiu.

Naquela manhã ele fez o mesmo trajeto de todos os dias, mas não percebeu nada ao seu redor. Ele não percebeu a menina que explodia em alegria brincando com um filhote de cachorro na porta de casa, não percebeu o cego que o fez parar antes que uma bicicleta o atingisse, não reparou no jornaleiro que anunciava uma nova contratação de um clube qualquer de São Paulo. Ele não percebeu que o ônibus estava lotado, que as pessoas estavam com aquela cara de sempre: a cara dele era a expressão de todos. Desceu do ônibus e, finalmente, chegou ao serviço; quando olhou para a entrada, pensou: “Eu poderia não ter vindo para cá hoje. Eu poderia ter entrado em qualquer outro ônibus e ido para algum lugar que me fizesse lembrar o caminho.”. E como se não houvesse mais tempo para isto, ele entrou no prédio. Cumprimentou fria e equivocadamente seus bastardos colegas de infelicidade. Ele desistira, outra vez naquele dia, de abandonar os reflexos do fracasso. Ele foi novamente apenas o ‘Ele’ que ele não agüentava mais. Naquele dia ele desistiu.

Na volta pra casa, para aliviar a própria consciência dos pensamentos francos e honestos, passou em uma adega e escolheu um vinho. Passou em uma livraria e escolheu um livro. Naquela noite eles se conheceriam, eles beberiam, leriam um para o outros, e desabafariam o peito em segredos presos na ponta da língua.

Quando abriu a porta de casa e entrou, sentiu algo estranho. Não havia cheiro de ‘banho tomado’. A casa estava vazia. Foi até o quarto e viu que somente as suas coisas estavam ali, e viu que todas as suas coisas estavam arrumadas, como se jamais tivessem, ainda que se conhecessem tão bem, misturado nada de suas vidas. Como se nunca tivessem dividido uma gaveta, uma estante, uma prateleira, um caderno: eles não se uniram, nunca. E em seu rosto lágrimas rolaram, rolaram numa desordem grata, num concerto de gratidão. Ele estava sozinho, e não precisara sujar-se com o fim.

Chegando à cozinha encontrou um envelope, ficou irritado, pois aquela carta distorcia todo o ambiente, era algo que não queria que estivesse ali, abriu-o e leu:


“Sabe o que é acordar todos os dias e sentir que estás apenas se levantando, ou que esperas, apenas, que chegue a noite para que possa, se Deus quiser, desperdiçá-la dormindo -acontecimento raro. Entretanto, mesmo que rasgue a noite em pensamentos lúcidos, ela não está lá, você não está lá. Nunca se vê, nunca a nota... Nunca ME nota. Triste e bela a Noite, apenas calça as sandálias, e desfila pelo corredor. Só em casa, trancada, a Noite pode exibir-se. Você esqueceu, desaprendeu a vê-la: ela não interessa, eu não interesso. E para você, então só resta fechar os olhos e adormecer, entretanto, você é muito fraco para sonhar, para criar. Está apenas mais uma vez esperando algo, esperando acordar para adormecer outra vez.
Eu não suporto mais isto.

O amei como talvez eu não tenha imaginado quando nos conhecemos. Ainda és o que me dói no peito, e o que me tarda da vida. Não me quero com você mais.

Daquele que jamais o quererá outra vez. Henrique.

E foi com estas palavras que ele agradeceu não ter tomado o rumo, mais cedo, de outro caminho. Que agradeceu ter ido ao trabalho, e não desviado a rota de costume. No entanto, algo o assombrava as idéias: “como seria a vida de Henrique, como ele se faria depois dali? Será que os novos caminhos dele o farão lembrar-se sempre dos trajetos?”. Mas como de costume, deixou-se levar pela cômoda preguiça cômoda e caiu no sofá. E assim, sentado no sofá com seu vinho, e seu livro ele recompôs seu futuro. Mas não havia nada lá. Não haveria nada de novo pela frente. Ele não seria capaz de tentar nada. O nada seria sempre sua mais intensa busca, seu mais intenso desejo e prazer. O nada era a conquista do fracasso.

2 comentários:

  1. Lorena, você provou, mais uma vez, sua competência. Não em escrever, somente, mas em criar.

    Se me permite uma observação pouco delicada, haha, eu acabaria o texto com o bilhete, ou seja: a última palavra seria "Henrique". O que você escreveu depois foi algo meio previsto, mas ficaria demais se essa previsão ficasse para o leitor, saca? Ele teria que mais ou menos pensar como seria dali pra frente. O mais provável? O nada... hehe

    Leia, por favor, esse texto: http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/urbana1.htm Ele mexeu comigo, me fez pensar em POR QUE escrever um texto, um livro, whatever. Me fez também tentar a olhar a arte de maneira mais bonita, procurando não por tristeza, mas por redenção. A redenção, qual seria? Um livro de fantasia, ao invés de ler Camus, hahahahah

    Abraço, Lorena, que eu não fique incompreendido!

    Parabéns, seus textos são FODAS!

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  2. legal o texto, mas soa meio.. gay

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