sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As crônicas de ninguém, volume 3

Chegamos ao terceiro texto das "Crônicas de ninguém", desta vez escrita pela companheira Lorena Cicari. Aliás, foi ela quem sugeriu o nome desta série. Segue:
Quantas ondas pra se afogar?

Por Lorena Cicari

- Comece de novo.

- Mas por quê? Pra mim estava tudo certo!

- Não, é melhor recomeçar, você deu uma vacilada logo no início.

- Certo, tudo bem, você é quem manda. Mas eu não percebi nenhuma vacilada.

- Você nunca percebe, né? Nunca presta atenção no que eu falo. Vai... de novo.

- Agora eu não quero tentar de novo. Você sempre tentar entender a coisa certa a se fazer.

- Claro. Não é assim que as coisas devem ser?

- Não. Não devem ser assim não. Nem sempre você tem de ter certeza do que está fazendo, oras...

- Mas se eu não tiver certeza, como posso saber o que vai acontecer?

- Mas para quê saber? A gente já sabe de tanta coisa. Imagina como seriam os nossos dias se a gente não soubesse que depois que o sol vai embora ele volta.

- Uai. A gente ficaria com medo, não?

- Medo? Não, expectativa. A gente criaria, inventaria...

- Mas... foi assim mesmo que fizeram Deus e escreveram a Bíblia.

- E dai? Olha só? Mitos duram muito mais do que verdades. As pessoas se esquecem da verdade. Elas enjoam da verdade. A verdade vira rotina.

- Rotina é bom. É bom saber que o sol vai embora, mas volta.

- Por que é bom saber disso? Segurança demais.

- Como você quer se programar se não sabe o que vai acontecer antes disso? Não pode dar chance ao acaso.

- Ah! Eu não me interesso muito em saber no que vão dar as coisas. Gosto de imaginar como devem ser, e o que podem ser... O melhor é saber que algo pode mudar, mesmo que não mude. Mesmo que seja do mesmo jeito que sempre foi. Pra isso eu tenho a cuca...

- Mas só de imaginação não dá para viver.

- Como você sabe? Alguém já morreu de imaginação ou você imaginou que não dá para viver imaginando as coisas?!

- Não tente me confundir. O melhor é saber o que virá depois do movimento.

- Então por que você gosta tanto de vir aqui jogar pedrinhas no rio? Só para ter certeza de que tudo sairá do mesmo jeito? É só por isso, meu pequeno... Amelie?

E foi isso. Isso foi tudo. Ele me levou para jogar pedras no rio, disse que eu não sabia fazer direito. Que eu nunca fazia estas coisas direito. Era só jogar as pedras, que ele tinha escolhido, no rio. Simples assim. Não havia o que inventar.

-Ah! para com isso. Joga, e veremos quem consegue mais “anéis”, minha cabecinha dura.

2 comentários:

  1. Vivemos em um mundo onde a rotina é supervalorizada, e o erro superestimado. As pessoas se esquecem que "Yesterday" foi composta graças a um sonho, e não devem saber que "Blackbird" nasceu de um erro. E a gente segue, girando no mesmo ciclo, mas não tira os pés dos pedais. E como diz o Kurt Vonnegut em "Cama de gato", "A girar, a girar, sempre ao léu, com pés de chumbo e asas de papel".

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  2. depois do movimento, o inesperado. a vida é caprichosa, vaidosa, mimada. está sempre blefando como se precisasse que a gente aprendesse algo que ela quer ensinar, e não o que queremos ou necessitamos.

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